segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

[os meninos da guerra] voltar a ser gente!


Menino-soldado...
(Imagem da net muito reproduzida, pelo que não consigo citar a fonte original)

Ainda assim, só consegui ter a certeza de que aquela interpretação não tinha sido fantasia minha quando o Padre José Maria me confirmou que sim, que alguns dos meninos mais velhos do orfanato tinham andado na guerra, embora não se tivesse alongado muito:

O que é que isso interessa agora? A guerra já acabou! Já basta tudo quanto sofreram. Há dois anos apareceram aí uns oficiais do exército a perguntar quais é que tinham sido os meninos que tinham andado na guerrilha, queriam nomes, sabe-se lá para quê, mas eu recusei-me a responder. Quase todos agora são adolescentes normais. Só um ou dois é que o psiquiatra achou que precisavam de acompanhamento. Para quê desenterrar o que já lá vai se não os ia ajudar em nada? Mais vale que esqueçam...

Mas não, não esqueciam. Eram diferentes dos outros. E seriam sempre diferentes… Para os mais novos, os que tinham sido mobilizados eram respeitados e reverenciados como uma espécie de heróis e rodeavam-nos para ouvir as suas histórias. Mas os mais velhos escutavam-nos mais com compaixão do que com respeito ou inveja. Entendiam a sua fragilidade… Não me foi difícil depois perceber quais eram estas "estrelas" que tinham um estatuto diferente, e assisti a uma ou outra discussão em que não se abordava diretamente o assunto da guerrilha, mas em que se notava claramente o seu fascínio por armas... Também ali, entre crianças e adolescentes, para além histórias de perdas, de abandonos e maus-tratos, havia traumas, feridas de guerra e stress pós-traumático.

Eu perguntava-me muitas vezes se seria possível sobreviver a tudo por que eles tinham passado e depois crescer normalmente, trabalhar com vontade, constituir uma família. Pelos vistos sim... Com mais ou menos marcas, com mais ou menos dificuldades na escola e nos relacionamentos, sei que todos acabaram por crescer. E muitos já completaram cursos superiores, arranjaram empregos, saíram da casa, casaram e tiveram filhos... É a isto que os pediatras gostam de chamar resiliência…
(continua...)

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