sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

[vozes brancas*] anestesices...



Tenho uma colega de curso que é uma anestesista de mão cheia, de coração e convicção, que fala do seu trabalho com o entusiasmo com que uma mãe falaria de um filho... Isto é tão forte na vida dela, pessoal, profissional e familiar, que a filha de cinco anos no outro dia foi ouvida a cantar o "Gloria in excelsis Deo":

- Gloooooria, precisa de oxigénio!

Ah, grande princesa!
> Adenda: Lembrei-me agora que eu pensei durante anos e anos que a letra era "Gloooria, e nasceu singelo!" E perguntava: "Ó mãe, o que quer dizer singelo?" "Quer dizer pobre, simples." "Ah, pois", pensava eu, "confere..."
* Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

[vozes brancas*] sim, há esperança!



Há tempos, na consulta de Desenvolvimento, a terapeuta da fala que faz parte da minha equipa, uma mulher de armas, com uma experiência enciclopédica, veio ter comigo para me entregar o relatório da avaliação da linguagem de uma menina que me é particularmente querida (é ao facto de ela ter tido uma intercorrência grave que devo a circunstância de ter conhecido o baby-de-mulata, que na altura estava internado na mesma enfermaria!).

Esta princesa tem um défice cognitivo e uma síndrome genética com implicações graves no desenvolvimento. Por isso eu ansiava especialmente pelo relatório da terapeuta da fala. "Perturbação do desenvolvimento da linguagem de tipo misto muito grave", era a conclusão. Mas a terapeuta animou-me:

- Apesar das dificuldades dela, ela é uma menina com potencial. E é esperta, não concorda? O que é que acha dela?
- Sim, concordo, ela não tem um défice cognitivo por aí além. E consegue aprender.
- Exato! Aprende, compreende e até se explica. Não como nós queríamos, mas como pode. A família é que também não ajuda, que todos falam crioulo lá em casa entre si, e falam Português com a menina. Para além de que não há muita cultura de falar com as crianças, cantar-lhes ou contar histórias.
- Mas acha que ela tem potencial para recuperar se começar a fazer terapia da fala?
- Sim. Em primeiro lugar porque ela repete tudo o que nós dizemos, portanto logo ali tem um "instrumento de trabalho". E depois... olhe, quer um exemplo? Eu estava a pedir-lhe para nomear objetos em imagens, mas às tantas ela estava com muita dificuldade em dizer "meia". Nisto, a mãe salta lá da cadeira dela e começa a resmungar com a menina: "Então, filha, tu sabes o que é, diz lá "meia", "peúga". Mas eu mandei-a sentar-se novamente e não intervir. Já não podia cotar a resposta mesmo que ela respondesse, mas de qualquer modo, por curiosidade insisti. Mostrei-lhe uma meia verdadeira e perguntei-lhe: "Como se chama isto?" E ela nada. "Como se chama isto, linda, onde é que se põe?"
- E então?
- E então ela ficou um bom bocado parada a olhar para a meia, mas estava com "aquele olhar" de quem está a processar informação. Dali a pouco voltei a perguntar: "Como se chama isto?" E ela respondeu: "Chulé!".
- Lindo! Muito bom! - não consegui evitar uma gargalhada.
- Pois, foi o que eu achei! Ela tem potencial. Acho que com jeitinho ela vai lá!


* Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

[outras imagens] natal em família

 
Fiquei a babar-me com este presépio feliz que a Helena nos mostrou hoje.
Quando a ela me comprar um (pago o que for preciso, Helena, ouviste?) coloco esta "sagrada família dos sonhos bons" à porta do meu gabinete de consultas com o aviso: "Nesta casa não somos fundamentalistas, mas advogamos o colo a tempo inteiro, o aleitamento materno e o co-sleeping. Sabemos ser persuasivos. São bem-vindos os que quiserem entrar!"

sábado, 7 de dezembro de 2013

[vozes brancas*] false friends

Há tempos no centro comercial, o baby-de-mulata, habitualmente está sempre pronto a saltar para dentro de qualquer carrinho daqueles em que só é preciso pôr uma moeda para desatarem cantar e dançar, desafiando o direito à autodeterminação gravítica de qualquer criança, desta vez recusava-se a entrar no carro onde estava o Mickey Mouse. Um Mickey numa locomotiva de comboio (e o que ele adora comboios!), bem desenhado, muito bem disposto e simpático, que acenava aos meninos que passavam.

Pior, para meu espanto, encaminhava-se para o carro da Kitty, o meu ódio de estimação (onde-é-que-já-se-viu-uma-boneca-sem-boca-para-falar-valha-me-santo-antónio-do-sermão-aos-peixes) que, mesmo ao lado, tresandava a cor-de-rosinha, enfeitado por florzinhas pirosas. Não o estava a reconhecer. O meu baby-de-mulata, que literalmente me rosnava de cada vez que eu tentava cultivar o seu lado mais sensível. O meu filho que me ignorava olimpicamente sempre que lhe mostrava um bebé careca para ele embalar ou uma flor para, subtilmente, lhe ensinar que oferecer flores à senhora sua mãe é meio caminho andado para obter todos os seus desejos, agora de repente virava-se para a piroseira da Kitty? Não se deve cuspir para o ar, realmente.

 Até que lhe perguntei por que razão não ia para o comboio ao Mickey, ao que ele respondeu: "Porque não, mamã!" E passado algum tempo perguntou-me: "Aquele é o Mickey Mau? Porque é que o Mickey é Mau, mamã?" (Graças a Deus! Depois de devidamente esclarecido o equívoco e, sem qualquer forma de pressão adicional, qual filho pródigo deixou a Kitty e dirigiu-se para o comboio do Mickey com a felicidade estampada no rosto! Obrigada, filho, por confortares a mãe!)

terça-feira, 26 de novembro de 2013

[nomes que dizem tudo] a escola toda...

Há dias, na consulta, vi de um adolescente de 14 anos, rufia até à ponta das orelhas, piercings no sobrolho franzido, desejo de meter mais uns 20 piercings em qualquer superfície do corpo onde fosse humanamente possível esboçar uma prega ("tivesse-eu-dinheiro-e-iam-ver-se-não-punha,-mas-a-minha-mãe-não-me-dá-dinheiro-nem-sequer-para-comer"), cara de "estou-farto-de-apanhar-secas-destas-mas-por-que-é-que-não-me-deixam-curtir-a-minha-vida-em-paz", furibundo por estar ali. Nem levantava os olhos, não me encarava de frente, que eu era certamente uma aliada daquela megera que lhe coubera em sorte como progenitora.

No meio daquela tensão enorme perguntei ao miúdo:
- Se calhar estás a ser um pouco exagerado. A tua mãe dá-te de certeza dinheiro para comeres na escola!
- Não dá, não! - acusou-a de imediato.
- Sim, doutora, ele começou a fumar e no ano passado usava o dinheiro que eu lhe dava para comprar tabaco. Agora não posso confiar nele, não lhe dou dinheiro nenhum!
- Mas isso foi no ano passado, eu agora já não fumo!
- Mas olhe que ele precisa de ter alguma rédea, para poder gerir e mostrar à mãe que está a fazer um esforço para se organizar.
- Pois, mas também está de castigo porque só falta às aulas. Naquela escola ninguém controla nada! Se ele falta às aulas e se começa a drogar ninguém dá por nada!
- Ele mudou de escola, não foi? Em que escola é que ele está agora?
- Na escola Coca Maravilhas...

...

...

- Escola quê?
- Coca Maravilhas!

(A mãe tinha medo que ele se começasse a drogar na escola Coca Maravilhas? Bem, quem era eu para lhe conseguir assegurar o contrário? Eu não ponho as minhas mãos no fogo, que deve ser difícil fugir a mensagens subliminares!)

Mas lá mandei a mãe sair para falar a sós com o miúdo...

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

[vozes brancas] coração de mãe



Na turma de Mr. B., o meu sobrinho de 5 anos, a educadora pediu-lhes para fazerem um coração em pasta de modelar para emoldurarem e oferecerem aos pais por ocasião de uma das incontáveis festas, solenidades, dias especiais, comemorações-por-ocasião-do-dia-mundial-do-papel-de-parede-e-afins que pontuam o calendário do ensino pré-escolar. E Mr. B. ditou à educadora a dedicatória para escrever na moldura: "O meu coração é leve e cheio de palhaçadas!" E eu fiquei a pensar onde foi que este menino foi buscar tanta poesia...

domingo, 10 de novembro de 2013

[outras palavras] memórias de um átomo

O Livro do Ega! Fora em Coimbra, nos dois últimos anos, que ele começara a falar do seu livro, contando o plano, soltando títulos de capítulos, citando pelos cafés frases de grande sonoridade. E entre os amigos do Ega discutia-se já o livro do Ega como devendo iniciar, pela forma e pela ideia, uma evolução literária. Em Lisboa (onde ele vinha passar as ferias e dava ceias no Silva) o livro fora anunciado como um acontecimento. Bacharéis, contemporâneos ou seus condiscípulos, tinham levado de Coimbra, espalhado pelas províncias e pelas ilhas a fama do livro do Ega. Já de qualquer modo essa notícia chegara ao Brasil... E sentindo esta ansiosa expectativa em torno do seu livro - o Ega decidira-se enfim a escrevê-lo.

in Os Maias, de Eça de Queiroz

Tenho um livro por escrever... De cada vez que alguém me pergunta por ele, lembro-me sempre do Átomo do Ega. Já tenho ilustradora, compradores potenciais, editora e local de lançamento... Só ainda não o escrevi. Alguém consegue imaginar pior desgraça?

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

[a força que um sorriso pode ter!] viver a diferença...

 
Peyton McCubbin é uma menina com esquizocefalia (uma doença semelhante à paralisia cerebral), a quem os pais todos os anos, constroem fantasias impressionantes em torno da sua cadeira de rodas para a festa do Halloween... este ano a menina desfilou como princesa Leia na sua nave espacial, acompanhada pelo seu orgulhoso irmão, "Luke". Amar um filho com todas as suas diferenças e limitações é isto. Agradecer porque há meninos que nos unem também! Daqui.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

[os meus leitores são os melhores do mundo!] lucky escape

 
Near miss...

Talvez um dia, daqui a uns dez anos, vos possa contar o que foi que aconteceu. Ou talvez daqui a seis meses isto já não tenha importância nenhuma. Ou talvez mesmo antes.

Muitos bloggers escrevem recorrentemente que os seus leitores são melhores que os outros todos. Porque são uns queridos, porque lhes dão muita força, porque lhes enviam presentes, porque lhes escrevem mails emotivos e lindos.

Mas hoje é a minha vez de dizer que EU é que tenho os melhores leitores do mundo! E mais não digo porque não posso, embora me apetecesse falar de tubarões, de pessoas que destilam ódio de tal modo que me incomodam só de olhar para elas, embora me apetecesse falar da minha estrelinha que não me deixou ser devorada viva. O que me aconteceu, graças a um assíduo frequentador deste mato, foi o que se vê na imagem! A very, very near miss... Ou então o meu Pai é mesmo o dono disto tudo e nada de mal me teria acontecido de qualquer modo. Hoje, mais uma vez, estou agradecida... A vida é, de facto, surpreendente!

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

[histórias para o baby-de-mulata] "uma mãe para o choco"


"A Mother for Choco" é a mais recente história sobre adoção que ando a contar ao baby-de-mulata.
Há muito poucas, infelizmente. É uma lacuna grave, já que há tantas crianças adotadas em todo o mundo, e dez vezes mais crianças que, não sendo adotadas, têm contacto com crianças que o foram ou sofreram perdas semelhantes e poderiam elaborar melhor essas perdas através de uma história pedagógica e com final feliz. A minha sorte é que o baby ainda tem dois anos e portanto gosta que lhe conte sempre a mesma história, sempre da mesma maneira, sempre pelas mesmas palavras. 
Esta é também uma história sobre a inclusão, a partilha e sobre os laços de família que se podem criar quando há amor.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

[vozes brancas*] "ainda não tens filhos?"

Uma amiga minha contou-me que uma outra colega nossa, certo dia em que foi visitar uma amiga à maternidade, levou a filha de sete anos e deixou-a na enfermaria a fazer os trabalhos de casa e a conversar com um colega mais novo, senhor de uma boa disposição e de uma espontaneidade inata para conversar com as crianças.

Quando a mãe regressou, o colega disse-lhe que a menina se tinha portado muito bem e que se tinha interessado por ele e tentado ajudar na resolução de problemas práticos da sua vida:
- Ah, sim - respondeu a mãe - ela é impecável, sempre a querer ajudar os outros.
- É verdade, é uma querida. E fez os trabalhos de casa ao mesmo tempo! Ela é supersónica, sai à mãe!

No dia seguinte, o colega contou-lhe o verdadeiro conteúdo da conversa: "Olha, tu és casado?", tinha-lhe perguntado a menina. "Sim, já sou casado com uma médica muito querida.", ao que a menina lhe perguntara de volta se gostava da mulher e se eram muito amigos. Como a resposta foi afirmativa, a menina considerou que estavam a condições reunidas para "o próximo passo". E perguntou: "E já tens filhos?" "Não, mas, sabes, gostava muito..." "Então sabes como é que se faz? Olha, tu tens uma pilinha e a tua mulher..."

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* Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

[outras palavras] portugal vs angola

 Diz a Bad Girl que vai a todo o lado:
Para mim ler "Angola anuncia fim de parceria estratégia com Portugal" é o mesmo que ler "Fanny termina relação amorosa com Hugh Jackman". 
Mais uma vez, deve ser das drogas.
Não faço a menor ideia de quem seja o Hugh Jackman ou sequer que tenha qualquer coisa a ver com a incontornável Fanny (que até eu conheço), mas é mesmo isto!

[alvíssaras!] não temais, que veio o halakavuma!

 
Um pacato pangolim comendo as suas formigas, sob o olhar atento e esperançoso dos habitantes da vila, durante a cerimónia pública de invocação de espíritos.
(Murrupula, Nampula)

Para quem não o conhece, o halakavuma - pangolim, em Português corrente - é um mamífero que vive em zonas tropicais da Ásia e da África que, segundo a tradição macua (a etnia que habita o norte de Moçambique), traz boa sorte e boas notícias. As suas escamas são igualmente traficadas para serem utilizadas como afrodisíacos. O seu aparecimento em Murrupula foi notícia no Notícias de Moçambique:
A vila sede do distrito de Murrupula, em Nampula, esteve ontem parcialmente paralisada para participar da cerimónia pública de invocação dos espíritos pelo aparecimento de um pangolim, mamífero considerado raro e cuja aparição é considerado na mitologia dos povos macuas daquela região, como sendo presságio de boa campanha de produção agrícola, entre outras dádivas.
 “Conforme mandam as tradições, tivemos que trazer o animal imediatamente para sede do distrito para o conhecimento das autoridades, depois que se seguirá outros tipos de rituais, antes de o animal ser devolvido para o mato”- explicou Wala.
Pronto, meus amigos, não se preocupem mais. Nada há a temer, que já veio o halakavuma!

domingo, 13 de outubro de 2013

[outras palavras] não mais me queixarei dos roncadores


Eu sempre me queixei que os maiores roncadores do mundo tendiam a sentar-se ao meu lado nos aviões. Sobretudo nas viagens que fazia mais cansada e a precisar de dormir. E nas de longo curso. Agora que penso melhor, era sobretudo nessas. E quanto mais longa a viagem, pior o síndrome de Pickwick: mesmo que eu tentasse distraí-los e mantê-los acordados em conversa, adormeciam pelos cantos, no intervalo entre duas frases. E lá recomeçava o pesadelo...

Acho que a minha atração magnética sobre os grande roncadores da humanidade atingiu o seu zénite numa viagem de 14 horas para o outro lado do mundo, onde tinha de um lado uma amiga que dormiu o tempo todo e nem na aterragem conseguiu acordar e, do outro, o maior ressonador que já vi ao vivo (e olhem que conheço muitos ortopedistas!). Cheguei a pensar em fazer um apelo geral por um aparelho de CPAP a bordo. Ou uma aterragem de emergência. A sério, o senhor fazia apneias de meia noite e cheguei a temer pela vida dele, sobretudo numa apneia prolongadíssima que terminou num ronco que quase me matou a mim do coração. Por fim cheguei a temer pela minha sanidade mental. Os comissários de bordo tentaram oferecer-me, por diversas vezes, tampões para os ouvidos, mas a vibração, assim, a seco, sem banda sonora, era ainda mais aflitiva. A mulher dele tinha, mui inteligentemente dado de frosques e encontrava-se a uma distância prudente, mais de quinze lugares atrás, mas eu reconheci-a por ser a única pessoa que passou por mim tentando fingir que ignorava o senhor e que não me lançou um olhar de compaixão. Ah, e que usava um par de tampões de silicone nos ouvidos.

Mas mal o apanhei acordado, só saiu de lá com a ameaça de que teria de ir ao médico quando regressasse de férias, que eu era menina para fazer uma denúncia pública e nunca mais o deixar viajar de avião, a bem da pureza sonora da atmosfera a bordo e da sua própria saúde.

Mas hoje rendi-me. Há uma pessoa mais azarada do que eu, valha-me Nossa Senhora do Ar! Não volto a queixar-me.

[músicas para o baby-de-mulata] cirandeiro


 
Cirandeiro.
Tradicional brasileira.
 
 
E o que o baby adora brasileiradas? E o que ele adora cantar e dançar? Parece mesmo filho de Mr. Shaka Zulu, benza-o Deus e todos os deuses africanos! E já agora que o benzam também todos os "pais de santo" brasileiros, que benzeduras nunca são demais! Adora esta música. Aprendeu-a uma vez nas aulas de música para bebés (obrigada, professor Vítor Gaspar!) e nunca mais parou de a cantar!
 
Ó cirandeiro, ó cirandeiro, ó
A pedra do teu anel
Brilha mais do que o sol
A ciranda de estrelas
Caminhando pelo céu
É o luar da lua cheia
É o farol de Santarém
Não é lua nem estrela
É saudade clareando
Nos olhinhos de meu bem.

sábado, 12 de outubro de 2013

[vozes brancas*] filhos do coração? ups, cuidado!


Há tempos, na consulta, um menino de 4 anos e meio, muito desenvolto e comunicativo, brincava comigo enquanto a mãe se demorava na casa de banho com a mais nova, que estava no treino da fralda. Conheci-o quando estava prestes a fazer dois anos, acabado de chegar a casa dos pais adotivos, que se apressaram a levá-lo à consulta para que eu o olhasse de alto a baixo e declarasse, para todo o sempre naquela família: "Temos homem! Que filho mais querido... Acho mesmo que saiu o Euromilhões a cada um!"

Os pais suspiraram de alívio. Mais tarde confidenciaram-me que apenas o sentiram filho de verdade depois da consulta. Fiquei contente mas chocada ao mesmo tempo. Eu ainda não tinha conhecido o baby-de-mulata e estava muito mais longe destas realidades e dos sentimentos que vêm devagarinho. Só depois percebi que os caminhos que levam da infertilidade à adoção não são lineares nem isentos de pedregulhos. Também demorei muito tempo a perceber que a adoção não é para todos, e que, para muitos casais inférteis, a ideia de adotar uma criança é incrivelmente perturbadora: lá bem no fundo, quase significa desistir do sonho de ser pai e mãe. Não critiquem, não julguem, talvez seja preciso passar pela dor de não poder conceber para saber o que se faria num caso destes.

Mas avancemos, que este menino estava ali mesmo na minha sala de consulta e brincava com um pato e dois patinhos pequeninos de cores diferentes. Sensível às questões da cor da pele, perguntou-me:

- Estes patinhos são filhos da barriga ou também são filhos do coração?
- Não sei - respondi - temos de perguntar à mãe pata. Mas o que é que tu achas?
- Eu acho que são filhos do coração.
- Pois, eu também acho. E ela gosta dos patinhos?
- Sim, gosta muito.
- E se fossem da barriga, também gostava?
- Sim. No outro dia vi uma senhora muito gorda e a minha mãe disse que ela tinha ficado assim porque tinha tido um bebé na barriga.
- Pois, os bebés fazem a barriga crescer muito para conseguirem caber lá dentro.

Nisto, ficou de repente com um brilho no olhar, como se tivesse tido, nesse momento, uma revelação. E a mãe regressou à consulta, mesmo a tempo de o ouvir afirmar:
- Ah, por isso é que a minha mãe ficou com as maminhas tão grandes. Foi para eu caber no coração dela!

Engoli em seco, esverdeada pelo comentário... Felizmente a mãe achou graça e riu-se da saída do filho.

Seguiu-se uma longa explicação à criança. E uma pequena explicação à mãe: cuidado com as metáforas! Antes dos seis ou sete anos as crianças não têm capacidade de abstração suficiente para compreenderem a diferença entre sentido literal e sentidos figurados. Fica aqui o aviso. E esta ficou para a história!

* Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

[baby carrying] a propósito...

 
Baby carrying é...
"Mamã, podes levar-me isto?" Ou ainda: "Colinho, mamã!", precisamente quando estamos nestes preparos...
(Não sei onde raio tomei nota do link, desculpem...)
 
 

[babywearing] a semana mundial

 
Esta é a Semana Mundial do Babywearing!
(Foto postada pela minha amiga Joana, na sua página 1bigo!)
 
[Estava agora a fazer este post e só pensava: Ainda bem que os meus amigos moçambicanos não me leem habitualmente, se não estariam a olhar para mim com cara de "Duh, qualquer dia nós também fazemos a Semana Nacional de Usar Roupa Interior só para gozar convosco! Há lá outra maneira de transportar as crianças!"]
 
Eu sou uma fervorosa adepta do babywearing, que tem inúmeras vantagens para as crianças e o seu desenvolvimento e usava sempre uma capulana moçambicana para transportar o baby-de-mulata. Era pro em colocar o menino às costas, num exercício africano de equilíbrio e destreza que deixava sempre a minha mãe sem respirar e a conter-se para não dizer "Cuidado que me deixas cair o desgraçado!", mas depois trazia-o sempre para a frente porque prefiro olhar o meu filho nos olhos. Nunca o deixava nas costas, embora até achasse que ele não se importaria de ir a apreciar a paisagem. A minha amiga Joana, entretanto, conseguiu o impossível: convenceu-me a usar uma solução bem mais prática, sem panos africanos e que dava para colocar o baby diretamente à frente. Quase tive pena de deixar a tradição moçambicana, mas as minhas costas e as coronárias da minha família (que, vá se lá saber porquê, não confia na minha fantástica agilidade e destreza corporal*) agradeceram.
 
 
* E têm razão, admito...

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

[cantar para as crianças] parentalidade em moçambique

 
Um menino depois de recuperar um pouco da desnutrição.
(Iapala, Nampula)

Ainda sobre a história do Dino... (Vá lá, está ali dois posts abaixo, não sejam preguiçosos, é mesmo preciso pôr o link? Enfim, mas já está posto, que há sempre alguém que reclama e eu sou mais que vossa mãe. Assim como assim, quem faz tudo nesta casa sou eu...)

Agora que vos contei a história, lembro-me melhor daquela mãe e dos gritos inconsoláveis daquele menino. É curiosa a tolerância que a mãe desenvolveu para com os guinchos que pareciam incomodar toda a gente menos a ela. Curiosa para dizer o mínimo. Quase tenebrosa, agora que penso nisso. A minha convicção profunda é que não nos devemos acomodar ao choro das crianças. Devemos evitá-lo ou fazê-lo parar. Ou tomar uma atitude. Não fingir que não ouvimos. Ou pior: não ouvir mesmo.

Uma vez, quando já vinha recuperando peso há algum tempo e já nos parecia mais neste mundo, durante uma birra em que ele chorava particularmente alto, perguntei à mãe o que fazia para o consolar, ao que ela me respondeu: "Nada, ele não para de chorar com nada." "Mas como é que ele reage se lhe contar uma história ou se cantar para ele?" "Não sei, nunca cantei...", foi a resposta que acho que eliminei da minha mente até agora. Ela parecia que estava a ouvir um extraterrestre. Que coisa mais nonsense! Era como se eu lhe estivesse a perguntar se o menino reagia bem às equações de segundo grau ou se gostava de funções logarítmicas. Então o menino ainda quase nem falava, como raio haveria de perceber uma história ou aprender uma canção?

"Mas então, ninguém canta para os filhos?", perguntei às mães da enfermaria. Algumas, poucas, cantavam. Quase nenhumas. Mas... mas... como faziam para acalmar os meninos? "Ora, doutora, pomos os meninos no colo [às costas na capulana] e eles calam!"

Na altura não me ocorreu que a geração que atualmente é mãe e pai das crianças de Moçambique é a geração de cresceu durante a guerra civil. É uma geração que não tem memória de ser consolada quando chorava. E não tem memória por uma razão simples: não o era. Ouvi os relatos de muita gente de todas as vezes que fui a Moçambique. Muitas pessoas não querem falar sobre os anos negros da guerra. Mas algumas falam, precisam de falar, e as recordações são completamente sobreponíveis.

As memórias de infância de quem cresceu no mato são de fome, terror e abandono. São de não se poder dormir dentro de casa sob um teto, por mais humilde que fosse. São as recordações de os irmãos mais velhos lhes taparem a boca quando choravam, para não serem ouvidos no escuro. São de dormir ao relento, à chuva e ao frio, cheios de medo de serem atacados pelos "bandidos armados". São as memórias da frase mais proferida: "Chiu! Está no mato! Não sabe que não pode chorar?" São as memórias dos escorpiões e das cobras venenosas que muitas vezes se aninhavam debaixo das esteiras das famílias, procurando o calor humano durante a noite. E o horror que era, de manhã, descobrir que tinham partilhado o leito com seres repelentes e perigosos, alguns mortíferos. Felizmente quase nunca mordiam. Parecia que os humanos nessa altura faziam parte da paisagem e não os incomodavam.

Recordo o quanto me chocou que as mães não tivessem as mais parcas noções de puericultura. Expliquei que era muito importante estimular as crianças, interagir com elas, falar para elas, brincar. Não sabiam disso? Muitas não sabiam.

Podem dizer, meus amigos, que não é preciso. Que as crianças ensinam os pais a serem pais. O meu baby-de-mulata, por exemplo, ensina-me todos os dias. Exige músicas, danças, inventa diálogos estapafúrdios, brinca com as palavras. Diz-me aquilo que gosta, exige que brinque, provoca-me, não me deixa afastar-me. Mas o meu baby é um menino fácil. É daqueles que está quase sempre bem-disposto, daqueles que quando não se levanta a rir e a cantar já sabemos que lá vem doença da grossa, daqueles que quase podemos dizer que se criaria sozinho com a mãe menos apta e mais básica, desde que minimamente sensível.

Mas o que dizer dos meninos difíceis? Dos que choram a toda a hora e só apetece que estejam calados um minuto? Que dizer dos que demoram a aquecer e que temos de nos esforçar muito para que interajam? Dos que parecem estar sempre só mais ou menos, nem carne nem peixe, e que aparentam ficar bem se não tiverem ninguém com eles? Para esses, que são largamente mais de metade, é preciso algumas noções de puericultura. E disponibilidade. E esforço! São estes que se deprimem. São estes que as mães deixam de ouvir chorar porque estão sempre a gritar. Ou então são os que não choram. Em suma, são estes que se deixam abandonar. São estes que se deixam desnutrir. E portanto são estas mães que temos de formar! E temos de cuidar destes meninos!

Cada vez mais me convenço que a fome e desnutrição é um problema muito mais abrangente e que não passa só por haver ou não haver comida. E que o desenvolvimento de um país só pode acontecer quando as crianças forem bem tratadas. Quantas gerações serão precisas mais para criar bem uma criança?

Por isso acredito cada vez mais nos projetos das Irmãs que conheço, que criaram jardins infantis, que são portos de abrigo para crianças de famílias analfabetas, crianças com falta de estímulo, crianças com doenças e desnutrição, inseridas em meios culturais pobres. Só pode ser este o caminho!

terça-feira, 8 de outubro de 2013

[músicas para o baby-de-mulata] cantar alentejano


 
Olha o Passarinho, do infelizmente esgotado "Cantar Juntos", músicas dos 0-3 anos.
Se cantarem uma segunda voz com uma terceira maior e uns requebros alentejanos, então, fica de ir às lágrimas... Ou sou só eu que me comovo com o cantar alentejano em geral?

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

[marasmo] autismo e depressão...

 
As crianças desnutridas na varanda da enfermaria de Pediatria.
(Iapala, Nampula)

(continuando...)

Mas a minha amiga Fátima não me deixou parar. "Estas mulheres dizem isto porque não têm filhos desnutridos, se não nunca iam desistir também!" Decidi continuar para não desiludir a minha amiga, mas eu própria estava vacilante.

Felizmente, no dia seguinte o menino recuperou o peso que perdera e não voltou a vomitar com a sonda nasogástrica. Já não sei dizer quantos dias depois começou a aceitar a solução nutricional pela colher e a aumentar de peso. As feridas começavam finalmente a sarar. Mas continuava a guinchar à nossa aproximação, a não se interessar pelos brinquedos com que o tentávamos estimular, a não olhar para o que a mãe lhe mostrava, a não comunicar de forma nenhuma. Agora que recuperava um pouco o peso e tinha mais energia, fazia uns movimentos bizarros com as mãos que se assemelhavam a estereotipias. O Dino tinha uma perturbação do espetro do autismo, concluímos. Fora por isso que a introdução da alimentação tinha sido tão difícil e que tudo o que se seguiu fora uma batalha terrível... Mas a mãe estava feliz e agradecida! Já tinha tido o seu milagre! O filho era assim difícil, mas estava vivo e a salvo, era tudo o que ela queria. Aceitava-o incondicionalmente, tal como ele era.

Entrava por fim em velocidade de cruzeiro na recuperação do peso e era uma questão de dias ou semanas até ter alta. Passaram-se mais uns dias sem que o víssemos com muita atenção. A mãe também aproveitou para ir um fim-de-semana a casa com o filho. Lembro-me vagamente de nessa altura ela me confidenciar tristemente: "Sabe, doutora, o meu filho quando era mais menino sorria muito..." Um murro no estômago... Não soube o que dizer naquele momento. Pus-lhe a mão nas costas e penso que ainda disse qualquer coisa como: "Força!" ou algo que o valha.

Acho que foi por isso que me surpreendi tanto quando, uma semana depois, o vi chegar a sorrir para mim, a andar pelo seu pé e a brincar com um brinquedo que eu lhe dera semanas antes! Onde estava o menino apático a quem tínhamos diagnosticado autismo? O que acontecera? "Nada!", dizia a mãe a sorrir, "Foi de repente. Num dia estava apático, no dia seguinte começou a olhar para as coisas que lhe mostrava, começou a sorrir, a falar um pouco. E ontem voltou a andar!" E a mãe já descobrira o que lhe tinha provocado a doença. Ela sempre suspeitara: fora o pão! Em casa tinha-lhe dado pão e ele vomitara, queixara-se da barriga e a diarreia regressara. Por isso cortara totalmente com o pão. Dentro de casa dela não voltaria a haver esse alimento, afirmava!

O pão?! Ai, valha-me Deus! Uma doença celíaca? O que acham vocês, meus colegas médicos? Eu não sei. Não posso ter a certeza, que não lhe fiz mais exames nenhuns. Mas finalmente tudo fazia sentido. Na introdução precoce dos alimentos, o Dino, miúdo difícil e obstinado, dera conta que algum alimento lhe fazia doer a barriga e preferiu não comer nada. Nem mesmo leite materno. Começou por ser uma defesa. O único alimento em que "confiava" era no milho e, por isso, restringiu a sua alimentação a este cereal. Durante uns tempos a situação manteve-se estável. O milho tem proteínas e conseguia dar-lhe as calorias necessárias para se sustentar. Mas falta-lhe um aminoácido essencial. Mesmo com o feijão, que comia ocasionalmente, não foi suficiente para manter aquele equilíbrio precário. Daí às lesões na pele e à regressão do desenvolvimento foi um pequeno passo, que uma doença febril acabou por atirar pelo precipício, levando ao marasmo grave que o fizera ser admitido no hospital.

E podia continuar a discorrer por aqui afora, falar de nutrição infantil, de aminoácidos essenciais, vitaminas, dos riscos da alimentação à base de milho, tão frequente na cultura macua, mas não foi para isso que escrevi este post. Só te queria dizer, Maria, que sei bem o que sentes quando falas de fome e desnutrição. Mais, que sei que uma criança desnutrida não sorri, não brinca, às vezes nem responde aos nossos esforços mais persistentes e ou às macacadas mais improváveis.

E pior, muito pior: há dias em que acreditamos na expressão de desalento das crianças. E quando uma criança deixa de sorrir é como se o futuro deixasse de fazer sentido. Ficamos sem chão.

É nessas alturas que tens de te lembrar de respirar fundo, princesa, e recordar as razões pelas quais em África se vive um dia de cada vez: é que com a fome nunca há batalhas ganhas. A guerra recomeça todos os dias.

Mas como dizia a minha amiga, nestas coisas não podemos querer 100%. Não vamos nunca conseguir salvar o mundo com os meios que temos, mas tentaremos com todas as nossas forças ajudar quem se cruzar connosco. E fazer como a Fátima: não acreditar nas vozes que nos dizem que as crianças não querem viver. É raro uma criança desistir. Mas elas podem: são crianças. Nós é que não podemos. Força, Maria! Carter não era enfermeiro. Nunca viu ninguém sorrir depois de ter estado às portas da morte. Nunca viu o olhar de agradecimento de uma mãe. Carter estava na profissão errada, confia em mim!

[outras palavras] começa a fome no niassa...



A minha amiga Maria, voluntária no Niassa através da minha ONG ("minha", salvo seja, da ONG que sempre me apoiou, de cuja assembleia agora sou presidente e por quem cultivo uma dívida de gratidão) postou hoje no facebook a seguinte mensagem: 
Hoje até podia falar da fome que as pessoas começam a sentir nesta época do ano por aqui, ou descrever as crianças que me têm chegado ao Centro nutricional e tentar capturar fotos dignas de Carter, mas como estou consciente dos motivos que o levaram ao suicídio, prefiro apreciar a chuva e deixar uma música ambiente adequada para a abençoar.
Deixaste-me gelada... É verdade, minha querida, eu sei, há dias em missão que nos enchem a alma de imagens horríveis, cenários que nos paralisam e nos tentam fazer baixar os ombros. É verdade isso que contas. Talvez Carter se tenha deixado invadir por esse horror até não sobrar, por entre névoas e desaires, a memória de um sorriso.

Sei bem do que falas. Não pretendo ensinar-te nada, que já tens um ano de experiência em desnutrição mas, ainda assim, vou contar-te como foi que percebi a razão de "marasmo" ser precisamente uma expressão que usamos para denotar depressão e apatia. "Gostava de sair deste marasmo", dizem as pessoas quando a sensação de abandono se torna avassaladora e não lhes apetece fazer nada daquilo que em tempos lhes dava prazer. Compreendi isso com uma criança desnutrida que me marcou para sempre.

Essa criança de quem te falo era o Dino, um menino de três anos, internado em Iapala em Abril de 2008, uma semana antes da minha terceira chegada à missão. Estava coberto de feridas nos membros e no tronco, como se a pele tivesse descamado em toda a sua profundidade, mas o que mais me chocava era a forma como se debatia enquanto a mãe lhe enfiava, sem dó nem piedade, com uma colher, a solução de reabilitação nutricional pela goela abaixo. Gritava, guinchava de boca fechada para que a maldita colher não lhe violentasse a nula vontade de comer. Mas em vão. A mãe agarrava-o e tapava-lhe o nariz. Quando abria a boca para respirar, uma nesguinha que fosse, lá vinha o líquido horrendo que, em vez de o fazer voltar à vida, quase o sufocava, ao entrar pelo mesmo orifício que o ar que lhe faltava. Todo ele escorria suor e solução nutricional. Quase me faltava o ar a mim também. Ao seu lado, porém, as outras mães de crianças desnutridas davam a mesma solução aos seus filhos, também sob alguns protestos, mas de longe mais suaves que os do Dino. Por fim, um vómito vinha pôr termo àquela reabilitação nutricional forçada. Para recomeçar pontualmente três horas depois, com uma mãe cada vez mais desesperada, mas igualmente obstinada.

A partir de um certo grau de desnutrição quase todas as crianças resistem a comer, é certo, sobretudo quando se lhes apresenta uma solução desenxabida e à base de leite de vaca, como é a solução nutricional da Unicef (não tenho nada contra o leite de vaca, entendam-me, mas a maioria das crianças africanas tem intolerância à lactose, o que lhes provoca dor e distensão abdominal; e isso, convenhamos, não ajuda nada nestas circunstâncias), mas aquela criança, ainda que ao lado de outras mais desnutridas, fazia impressão. Não sei se metia dó, se metia raiva, se me fazia sentir zangada ou só terrivelmente desconfortável. Passava-se certamente mais alguma coisa. Uma obstrução intestinal? Uma alergia às proteínas do leite de vaca? O que o fizera ficar desnutrido em primeira instância?

A minha amiga Fátima, que tinha ido comigo nessa missão, dizia-me: "Não vês que é ele que está a puxar o vómito? O miúdo é difícil e a mãe não parece muito adequada." Mas para mim difícil era acreditar que todo aquele aparato era puramente comportamental. Será que era uma reação à imposição da alimentação de uma forma tão coerciva? Resistir, fechar a boca e puxar o vómito eram o único espaço de liberdade que restava àquela criança, presa no excesso de zelo de uma mãe desesperada.

Mas a verdade é que todos os dias o Dino perdia peso e não dava qualquer sinal de ter fome ou querer comer. Tentámos de tudo. Distraí-lo com vídeos no iPhone, com canções, com danças, tentámos brincar, chamá-lo à razão, pedir, ameaçar. Por fim, acabávamos por lhe colocar uma sonda nasogástrica... e ele vomitava. Por vezes, quando conseguia que olhasse para mim, fazia-lhe a minha cara furibunda nº 5 e ele parava. Aí não puxava o vómito. Mas por vezes vomitar parecia inevitável. O miúdo era, de facto, difícil. Ou pior. Se calhar não queria mesmo viver... Mas logo me emendava: não, não, não podia ser! Que ideia ridícula. Alguma coisa se passava, de certeza!

A história que a mãe contava, num Português muito acima da média para os habitantes de Iapala (mas que ainda assim não ia além de um sofrível), era que o menino nascera bem e se alimentara exclusivamente de leite materno até aos 8 meses. No mato em Moçambique é habitual o aleitamento materno exclusivo até aos 12 meses, portanto não ter ingerido rigorosamente nada para além de leite materno até aos 8 meses era perfeitamente normal.

Mas a mãe continuava: a introdução de novos alimentos é que tinha sido dramática. Aos 8 meses, quando introduzira a colher, o Dino passara a recusar o leite materno, deixando a mãe com uma mastite terrível. E se ao princípio ainda aceitara razoavelmente o milho, a carne e o feijão, meses depois (não sabia precisar quantos) passara a recusar terminantemente qualquer alimento sólido. Deixara de aumentar de peso. Pouco a pouco tornara-se numa criança irritável, alheada do mundo e das pessoas, deixara de dizer "mamã", deixara de ter interesse em brincar, nem a mãe olhava de frente. Respondia a qualquer tentativa de aproximação de outra pessoa, nem que fosse a avó, com guinchos estridentes. Uma regressão maciça do desenvolvimento.

Acontecera alguma coisa nessa altura?, indagava eu, assombrada com tanto sofrimento no olhar de uma mãe. Não, só o pai tinha partido em trabalho para Nampula, mas não acreditava que fosse isso, o menino nunca fora muito ligado ao pai. E a mãe? Teria ficado triste com a partida do pai?, ocorriam-me histórias de crianças a quem a depressão materna deixara profundas marcas no desenvolvimento. Mas também não fora o caso. Até tinha sido um alívio, confessava-me, porque ele em Iapala não tinha trabalho e estavam a passar dificuldades. Nesse aspeto tudo tinha melhorado...

Pelos dois anos, a única coisa mais ou menos sólida que a mãe o conseguia fazer comer já era apenas papa de milho. Nos dias bons conseguia também fazê-lo comer feijão. Mas sempre sob fortes protestos, praticamente à força. Só comia bem a dormir, mas era difícil porque tinha o sono leve e acordava facilmente.

Até que, aos três anos, tivera uma doença. No hospital disseram que era malária e trataram-no como tal, mas o menino nunca mais se recompusera. Fora acometido de uma diarreia febril que demorou a passar e o fizera perder peso e ânimo. Deixara de andar. A pele caía-lhe, grossa e descamativa, os cabelos tornavam-se descolorados, cor de palha e, outrora rebeldes e encrespados, desfrisavam-se e caiam em catadupa.

Raios! Como é que se chega a este ponto, meu Deus? A mãe pensava o mesmo. Percorrera todos os hospitais das redondezas, não sem antes ter recorrido aos melhores curandeiros. Até que, no hospital, o Sr. Sousa, colega do marido, a convencera a ficar e tentar o programa de reabilitação nutricional. "Não existe outra solução", dissera-lhe. E ela, sem alternativa, ficara.

Mas o que viera primeiro?, perguntávamos. A regressão do desenvolvimento ou a recusa em alimentar-se? Seria uma perturbação do espetro do autismo? Seria uma questão psicológica, assim uma anorexia nervosa infantil, que infelizmente também as há? Seria uma doença intestinal que o fizera sentir-se desconfortável com a comida? Um molho de brócolos, era o que era aquele menino!

Os dias passavam e, com a sonda nasogástrica, os antibióticos e as vitaminas, o menino lá ia aumentando de peso. Quase nada que se visse, mas enfim, pelo menos já não perdia. E havia vezes em que já não vomitava.

Até que uma manhã, na fila para pesar, o Dino, ao colo da mãe, não chorava como de costume. Eu via água a escorrer pelo vestido da mãe, mas como ele era dos últimos da fila e eu estava concentrada em tomar nota dos pesos, pensei que o menino se entretinha com alguma garrafa de água e até me alegrei. Estava mais calmo! Quando chegou a vez dele, quase uma hora depois, percebi, horrorizada, que estava pálido, desidratado, quase em choque. Perdera dois quilos. A gastroenterite que grassava no hospital pela falta de saneamento básico e por as fontes de abastecimento de água estarem contaminadas, tinha-o atingido. Fizéramos todos os possíveis para evitar que a epidemia chegasse à enfermaria das crianças. Aconselháramos toda a gente a ir buscar água a um fontanário que não estava contaminado e a dar unicamente água fervida. A solução nutricional tinha de ser preparada pelos enfermeiros com água tratada. Mas em vão. Quando o saneamento é deficiente é difícil travar as epidemias.

Transferimo-lo para a enfermaria de adultos porque naquele estado não podia estar junto com as outras crianças fragilizadas pela desnutrição. Ainda tentámos colocar-lhe um acesso venoso, mas com ele tão desidratado foi impossível. Até aí, na ingenuidade de quem nunca viveu estes dramas, eu pensava que uma criança desidratada e com sede nunca recusaria água. Ou soro oral. Pensava que uma desidratação daquelas só poderia provocar uma avidez por líquidos. Mas o Dino também não abriu a boca para o soro. Nunca recusara água, mas agora recusava rigorosamente tudo, incluindo água e soro.

Na nova enfermaria, as mulheres doentes olhavam-nos, abanando a cabeça: "Tudo tem limite, Doutoras! Já lá vão quantos dias? Não veem que esta criança não quer viver? Para quê tanto sofrimento? Tenham respeito pela mãe e pelo filho!" E, de facto, o olhar da mãe era de quem tinha desistido. Colocámos-lhe novamente uma sonda nasogástrica para o hidratar, mas a mãe nem sequer o segurou para nos ajudar. Deitou-se na cama do filho e adormeceu. Tinha chegado ao seu limite, aquela já não era a sua luta. Mas... oh, meu Deus! O peso daquela luta era enorme... Seria lícito continuar a fazer sofrer uma criança que já tinha sofrido tanto e que claramente tinha desistido? Foi uma noite difícil, com tantas dúvidas nossas, com tantos olhares reprovadores, com o olhar de abandono do menino, que não vomitava mas também não reagia a nada.

(continua, que o post vai enormíssimo)

domingo, 6 de outubro de 2013

[instantes] ironia do suporte avançado de vida

 
Não resisti a partilhar esta imagem*... Uma amiga minha chegou a casa depois de três dias num curso intensivo de Suporte Avançado de Vida e viu o que os filhos tinham estado a fazer durante a tarde: brincar às escolas. Filhos: "Mamã, olha, a B. acertou nas letras todas!" Minha amiga: "Arrrghh!"
 
* Sim, lamento, é humor para médicos. Não tem assim tanta graça, não se preocupem se não perceberem.

[outras palavras] a luz

 
O Padre João Torres batizando uma mulher adulta.
(Ocua, Cabo Delgado)
 
Li hoje na sua página pessoal:
Todos experimentaremos, cedo ou tarde, o momento em que a nossa fé perde o pé, não tem apoio, nem garantia, nem sinal nem prova. É, pura e simplesmente, ato de confiança inquebrantável na beleza e na ternura de Deus, graça que nos faz viver e esperar, com paciência, o tempo mastigado com fios de felicidade... Como nos diz o Papa Francisco, “a fé não é luz, que dissipe todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho.”
Também é esta a minha fé e a minha esperança. A vida tem de ser simples.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

[as melhores do serviço de urgência] by medicina geral e familiar

Tenho um amigo cujas pérolas da consulta e urgência me fazem rir quase todos os dias. É médico de família e, para alegria de todos, com os adultos as consultas por vezes são autênticas anedotas:

- O meu marido teve um acidente de mota e foi operado muitas vezes. Da última vez tiveram de lhe pôr uma próstata no joelho.

- Fiz uma liquidação das trompas mas, agora que me casei outra vez, queria-as de volta.

E a última que ainda me está a fazer rir para dentro:

[Ler com sotaque brasileiro]
- Doutor, da última vez o senhor me passou aquele remédio, Transolusina*, mas aquilo não funciona não.
- Então? Continua com dificuldade em urinar?
- Em urinar não tenho dificuldade nenhuma, mas a Transolusina não era para me fazer transar mais?

* Tansolusina - Medicamento para a hiperplasia benigna da próstata.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

[uma escola no mato] bem-vindo à república centro-africana...

 
A minha amiga Susana na sua batalha diária numa escola sem bancos, sem livros e sem paredes... Não quero desfazer nos dramas de quem ainda não tem professores colocados, de quem trabalha longe de casa, de quem tem de se adaptar a professores novos todos os anos. Os dramas são de quem os vive.
(República Centro-Africana)

terça-feira, 24 de setembro de 2013

[as melhores do serviço de urgência] lamento, mas esta é mesmo só para médicos...

No serviço de urgência:
- Doutor, ando com uma dor aqui na anca, é melhor mandar-me fazer um raio x das carnes moles.

(Cortesia de um colega meu de Medicina Geral e Familiar, daqueles que têm mesmo doentes a sério, dos que tomam Sexodil para dormir e Omeprozac de manhã por causa dos azedumes. Agora que leio melhor, acho que este último seria um medicamento vencedor, como é que ainda mais ninguém se lembrou disto?)

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

[casar com um médico] vantagens, só vantagens!

 
O martelo de reflexos dá uma excelente antena de televisão!
Roubado ao meu amigo Alexandre, a concretização foi ideia da sua expedita empregada doméstica, que partilha da minha máxima de que a vida tem de ser simples.
 
Sim, pronto, meus amigos, eu concordo: não é razão para casar com um médico. Mas é mais uma razão! Há outras. A sério.

[outras palavras] a adoção e a biologia do amor...


Na revista Visão da semana passada foi publicado um artigo delicioso sobre os efeitos do amor no cérebro de crianças adotadas! Aqui vos deixo um pequeno excerto:

"O estudo das crianças adotadas tornou-se um dos maiores aliados dos investigadores que procuram respostas para problemas de desenvolvimento e perturbações afetivas. As más experiências emocionais, muitas vezes presentes nestes casos, deixam marcas — visíveis em imagens de ressonância magnética. O trauma altera as estruturas neurológicas do nosso cérebro, diz a psicóloga holandesa Anneke Vinke, que analisa casos há vários anos, trabalhando com uma equipa responsável pela publicação de centenas de estudos sobre adoção. Se o trauma se repetir, alerta, cérebro altera-se ainda mais .

Talvez mais surpreendente do que a marca física do trauma seja a mudança biológica determinada pelo amor — depois da adoção. As vantagens podem ser medidas em ressonâncias magnéticas, que mostram o desenvolvimento cerebral e as zonas ativadas antes e depois. A criança adotada cresce fisicamente. Até a cabeça fica maior. E a cognição também melhora 10 a 15%, explica Vinke, que esteve em Portugal para participar na Conferência Internacional de Adoção, tendo falado sobre as teorias da neurobiologia e o que elas significam em relação à criança adotada.

 Embora entenda que a adoção é vantajosa em qualquer idade, a psicóloga holandesa defende a necessidade de agilizar os processos para que se reduza ao máximo o vazio afetivo. Numa família equilibrada, ao choro do bebé responde-se com atenção. O organismo estabiliza, baixam os níveis de cortisol. Se, pelo contrário, à agitação corresponde um vazio ou uma reação agressiva, o bebé não normaliza os níveis hormonais. A falta de afeto leva a duas reações para regularas emoções: ou se fecham, num comportamento de tipo autista, ou são hiperativos, reagindo a tudo o que acontece à volta. Em ambos os casos, há um excesso de hormonas de stress no organismo. Acontece a todos os humanos mas, nas crianças negligenciadas, esse nível hormonal está sempre elevado. E deixa marcas."

É por isso que eu tenho esperança! Eu vi isto acontecer comigo e com o baby-de-mulata!

domingo, 22 de setembro de 2013

[as melhores do serviço de urgência] preceitos de bem-nascer!


Hoje aprendi mais um preceito indispensável para se nascer bem, assunto que como sabeis me é particularmente caro, pois se até já vos tentei ensinar a ajudar a dar à luz numa bomba de gasolina em 20 passos extremamente didáticos (próximos episódios com serviço público: como convencer um homem a arrumar a casa - este é em 40 passos, mas chegamos lá, nem que seja em 50 mais um - e como fazer um lactente arrotar sem acordar - este em 20 passos embora, confesse, alguns passos possam ser mais didáticos que outros).

Ora pois, mas eu ia contar-vos que hoje aprendi mais qualquer coisa sobre isto de bem-nascer. E nisto de bem-nascer, meus amigos, é sempre bom estar informado. Penso que já toda a gente ouviu aquela ideia meio absurda de que é preciso ter muito cuidado quando o bebé tem o cordão à volta do pescoço, mas até percebo a fantasia arrepiante que uma mãe pode ter (sobretudo naquela altura em que praticamente não tem sangue no cérebro), que é a de que o seu bebé se arrisca à forca no próprio cordão umbilical no momento de nascer.

Mas hoje no Serviço de Urgência tive uma revelação extraordinária: no boletim de saúde de um recém-nascido constava que ele tinha nascido por cesariana eletiva. Podia ser essa a chave para o problema do menino. E vai daí perguntei à mãe:
- O seu bebé nasceu de cesariana porquê?
- Olhe, doutora, porque eu tinha muito líquido amniótico e explicaram-me que o bebé se podia afogar quando nascesse.

Ah, pois, é verdade, que cabeça a minha, os bebés de hoje não sabem nadar como antigamente. E depois admiram-se que as taxas de cesariana continuem a crescer.

domingo, 15 de setembro de 2013

[manual de conversação para o baby-de-mulata] primeiro módulo: check!


É com um orgulho imenso que venho aqui anunciar que o meu baby-de-mulata, o menino mais bem-disposto e mais doce do mundo, já é um autêntico master na área da comunicação telefónica e em meter conversa com os vizinhos no elevador!
Desde que lhe dei umas pequenas luzes sobre o assunto, eis que o baby, que antes era só silêncios e sorrisos envergonhados, agora sempre que me vê a falar ao telefone arranca-me o dito das mãos e pergunta a quem estiver a falar do outro lado (à madrinha, por exemplo): "Olá, madrinha, como estás? Como está Mr. B., está bom? O que estão a fazer?" ou, no caso de o interlocutor não ter filhos, por sua própria iniciativa pergunta pelo animal de estimação (à avó, por exemplo, pergunta pelo gato): "Olá, avó, o Bingo está bom? Já papou?"
Para dois anos e três meses está mesmo bem lançado!, diz sua mãezinha, a quem obviamente a desidratação causada por tanta baba já começa a afetar o cérebro... 
E agora que consegui que o baby despertasse para o maravilhoso mundo da conversa de chacha, já estou a preparar o módulo II: Introdução aos Comentários Meteorológicos: Noções Básicas sobre Pluviosidade e Bom Tempo.
Mais uns tempos e chegamos ao "Olá, prima, há quanto tempo não a via... Está na mesma! Parece que o tempo não passou por si!" e terá a adolescência assegurada!

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

[uma história de amor] o dia em que o baby-de-mulata entrou no blogue!

Dias depois (sim até aí tudo me parecia um sonho e demasiado avassalador) falei-vos sobre ele. Aqui. E este blogue limpou-se das saudades, encheu-se de esperanças e nunca mais foi o mesmo...

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

[foi há um ano!] o melhor milagre da minha vida!

Há precisamente um ano, depois de um baby-shower com as melhores amigas do mundo, arrumei o quarto do baby-de-mulata, acabei de montar o álbum de fotografias que lhe haveria de mostrar quando chegasse a casa (um álbum que ilustrava a transição da instituição para a nova casa e para a família) e fui deitar-me com a certeza de que um milagre estava para acontecer! No dia seguinte instalei a cadeirinha no carro fui buscá-lo! Obrigada, meu bem, por teres "fugido" comigo...

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

[vozes brancas*] anjo da guarda...

A propósito do post de ontem, e  falando sobre formas peculiares de rezar, na oração do Anjo da Guarda o baby-de-mulata também faz umas variações muito próprias.

É que "alma", enquanto elo entre o espírito e a matéria, fonte última responsável pela comunhão humana com Deus, é um conceito que penso que o baby ainda tem um pouco mal sedimentado. Por isso, ele substituiu-o por um conceito ligeiramente mais percetível e concreto, e pede todas as noites ao Anjo da Guarda: "Guardai a minha ÁGUA de noite e de dia." E a mãe do baby (esta que vos fala), senhora de uma consciência ecológica considerável e fervorosa defensora dos objetivos do milénio para o desenvolvimento, aprova! E de forma completamente acrítica, baba-se!

* Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

domingo, 8 de setembro de 2013

[vozes brancas*] oedipus rex

Sabes que o Édipo se tornou rei cá em casa quando...

... o baby-de-mulata tenta, com um sorriso meio meloso meio gozão, rezar antes de dormir: "Em nome da mãe, do filho e do espi'to xanto" e depois acrescenta com o ar mais delico-doce deste mundo: "O filho xou eu, mamã!"


* Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

[um vice-treco num sub-troço] quem é este homem?


 
"Você sabe com quem está falando?"
Não sei quem é este homem. Mas gosto dele! A definição da imagem é péssima, o áudio é mais do que ranhoso, mas o humor é inteligente e refinado. Para quem tiver 10 minutos.

[it's not about the nail] it never is!


 
"Não, não é essa a questão! Não é esse o problema. É muito mais profundo e avassalador do que isso!" Por vezes a carga emocional de um problema é tão pesada que uma qualquer solução não nos parece sequer suficiente para aplacar o sofrimento. Outras vezes estamos apenas a ser "gajas" e a denegar o óbvio. Eu bem digo que ter dois cromossoma X é demais para muitas mulheres. 
Este vídeo é quase tão bom como este outro aqui.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

[à beira do rio molócuè] anoitecer...

video
 
Uma mamã com o filho às costas tenta recuperar o seu precioso bidão de água que se lhe escapou no rio... Apesar de já existirem fontanários de água potável no Gilé, essa água é cara e as pessoas não se conseguem dar ao luxo de a utilizar para outros fins que não para beber. A água para cozinhar (que vai ser fervida), para lavar a roupa e tomar banho vem toda do rio... um rio onde eu não entraria sequer para molhar os pés porque, para além do perigo dos crocodilos, está infestado de doenças. A vida nem sempre é simples na Zambézia...
(Gilé, Zambézia)

[nomes que dizem tudo] coincidências felizes!

 
Só me faz lembrar o meu menino da consulta, o Manuel Arranhado*, que tinha uma dermatite atópica e lesões de coceira por todo o lado, ou aquele senhor de quem já vos falei, o Sr. Francisco Pão Costa, que tinha um tumor de Pancoast**. Mas isto é mesmo humor refinado.*** Ninguém pode dizer que este não é um verdadeiro homem desta terra!

* Nome próprio obviamente fictício.
** Felizmente ficou curado, de outro modo não estaria aqui a brincar com a doença.
*** Sim, eu sei, sou provavelmente a centésima pessoa da blogosfera a postar sobre isto, mas deixem-me dizer-vos que dei a minha primeira gargalhada em vários dias! (Sim, estou enclausurada a fazer um relatório gigantesco. Não, não me perguntem mais nada. Sim, já tive dias melhores.)

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

[welcome to my hospital] deliciosa farda!


 
A enfermeira Catarina é o máximo! Bem disposta, sempre sorridente, cool para os adolescentes e com uma paciência de Job para os pré-adolescentes, motiva, brinca, faz palhaçadas. E ostenta com orgulho as obras de arte dos seus doentes crónicos inscritas na bata! Deliciosa! Não liguem ao que ela tem na mão direita. Com um bocadinho de insistência, os meninos convencem-na a deixar...
(Hospital Dona Estefânia, Lisboa)

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

[outras palavras] para quem está a pensar em adotar...

Hoje vi uma reportagem sobre o deputado norte-americano que adotou recentemente duas gémeas de dois anos que tinham sido separadas aos três meses. Já era pai de três filhos quando, no último Natal, ele e a mulher se apaixonaram por estas pequenas primas afastadas e decidiram passar a ser sete lá em casa, e as gémeas repararam o vínculo que tinham perdido... A reportagem termina com uma frase desse deputado que me apetece sempre dizer também quando comentam que saiu a sorte grande ao baby-de-mulata: "As pessoas dizem muitas vezes que eu vou ser uma bênção para elas, mas tenho de responder muito diretamente, para alguém que esteja a pensar em adotar, tenham a certeza de que serão muito mais abençoados pelos seus filhos do que alguma vez conseguirão ser uma bênção para eles!"

domingo, 1 de setembro de 2013

[as melhores do srviço de urgência] i have a dream!

Esta tarde, no serviço de urgência, um colega meu, pediatra de mão-cheia e de sorriso farto perguntava à mãe de uma criança de 8 anos que vinha com febre e dores de cabeça:

- A sua filha é saudável?
- Mais ou menos, ela é muito utópica.
- Ah, mas isso não é doença, faz parte dos 8 anos, até é bom para ela ser assim!
- Bom para ela? Ter a pele cheia de manchas e não dormir com as comichões?!
- Como?
- Estava a dizer-lhe que ela tem pele utópica, o que é que o doutor percebeu?
- Ah, sim, sim, percebi outra coisa. E então o que a traz cá?

sábado, 31 de agosto de 2013

[welcome to mozambique] inseticida...

A pedido de ainda mais famílias, aqui fica mais um pequeno excerto do meu livro:

Deixo-me ficar na cama ainda mais uns minutos depois do alarme do telemóvel tocar. Recordo-me desta noite... Ainda nem acredito que recebi um recém-nascido em Moçambique, à luz das velas, como nas mais antigas histórias que ouvia contar! (…)
Cumprimento a Amélia, a minha discreta companheira de quarto, uma osga simpática e madrugadora, que a esta hora já se encontra colada aos vidros da janela ao sol (desconfio que terá passado ali a noite...), com as patinhas esticadas numa enorme preguiça, à espera do pequeno-almoço esvoaçante (este sim, literalmente um “mata-bicho”). Instalou-se no meu quarto há três dias, trazida pelo cozinheiro ante o meu olhar de ponto de interrogação. Eu tinha-lhe pedido inseticida pois não tinha rede mosquiteira no quarto, ao que ele respondera:

– Não sei o que é set'cida, doutora...
– Remédio para os mosquitos – reformulei.

– Ah, não tem problema!
E horas depois regressou com a Amélia... A verdade é que esta minha inquilina é uma exímia caçadora de mosquitas, mosquitos e moscas e ainda não precisei de usar inseticida.

in A Missão - Diário de uma Médica em Moçambique

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

[vozes brancas] el hospital del pajarito


 
Delicioso! Absolutamente delicioso e encantador! Fez-me lembrar o deslumbramento dos primeiros meninos que me trouxeram os seus bonecos para eu os tratar, a cara de espanto quando o Rx revelava um diagnóstico certeiro e o divertimento deles a ajudar-me a pôr um penso ou uma ligadura no Hospital da Bonecada. Mas isto, senhores, isto é em bom!

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

[veja como fala!] parole sono importanti!


 
Magnífica cena do filme Palombella Rossa de Nanni Moretti.
 
Não chegaria ao ponto de Nanni Moretti, de agredir alguém por usar uma palavra fora de contexto, mas sempre fui muito sensível às palavras. Quando o tema é delicado, encontrar palavras que não magoem é difícil, e pode ser um desafio quando estamos perante pessoas hipersensíveis ou, de alguma forma fragilizadas. Aprendi cedo que não se deve usar palavras conotadas negativamente, mesmo que sejam "termos técnicos". É certo que se pode dizer parir quando falamos de maternidade, por exemplo, mas para quê se existem alternativas mais positivas, mais gentis, mais delicadas para falarmos com uma jovem mãe na sala de partos?
 
Mas este ano fui apanhada de surpresa por um Pedopsiquiatra que prezo e admiro imenso. Eu pedia-lhe ajuda para esclarecer o comportamento de uma criança que, por uma série de razões, me parecia autista. Ele perguntou-me então que mais lhe poderia eu dizer sobre a criança, ao que eu respondi que era uma criança meiga, sossegada, que gostava de brincar sozinha, com uma relação privilegiada com a irmã mais velha, que tinha uma atitude maravilhosamente protetora e maternal para com ele. Foi então que este meu colega me surpreendeu com a pergunta: "Acha que esses comportamentos chegam para o descrever?" Acho que nem percebi onde ele queria chegar. Respondi que não, que certamente que não, longe disso, que também era muito importante dizer que o menino tinha muitos aspetos a seu favor, que haveriam de jogar como fatores de bom prognóstico e de resiliência, que o tinha achado encantador e a mãe muito atenta e adequada aos seus problemas e dificuldades, e que ambos formavam uma díada fortíssima. "Então porque foi que disse que ele era autista?", foi a resposta. 
 
Senti-me a jornalista desta cena da piscina no Palombella Rossa! Nesse momento senti vergonha. "Logo eu, que lutei tanto contra o estigma da lepra e do VIH em Moçambique, que nunca deixei que ninguém chamasse leprosos aos meus doentes com lepra!", pensava enquanto ele continuava: "Nós aqui não gostamos de dizer que uma criança é autista, mas que tem um autismo. Parece a mesma coisa mas o impacto é completamente diferente. É como se estivéssemos a dizer que o autismo não é tudo o que a criança é, que não a define como pessoa, que essa criança é muito mais para além do autismo e do seu comportamento." Claro. Claro que sim! Fazia todo o sentido. Acatei este conselho e fi-lo meu.
 
É verdade que as palavras não descrevem apenas factos, elas evocam sentimentos e emoções, têm cargas positivas ou negativas. Ou neutras. Podemos fazer a diferença quando falamos de forma positiva ou neutra, porque assim aligeiramos a carga emocional e podemos desfazer alguns mitos. Têm de concordar comigo que ao dizer que uma criança "é doente" nos estamos a resignar a um facto consumado, enquanto que se dissermos que o menino "tem uma doença", inevitavelmente alguém se chegará à frente a perguntar: "Então e agora, como é o tratamento?" É uma linguagem que permite avançar!

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

[improbabilidades] nomes que dizem tudo

 
Mais um impagável táxi/ chapa em Maputo!
Foto da querida Daniela. Obrigada!

[outras palavras] acentuação

é tão difícil dizer amo-te
murmurava ontem um amigo
a propósito de coisa nenhuma e
muito menos de amor

estávamos entre papéis e tintas
com a casa onde nasceu Pessoa mesmo em frente e
talvez por isso
a questão das palavras o
atormentasse daquela maneira

passou os dedos pelos desenhos de um livro e
ficou a olhar para o largo que
se avistava da janela
quem sabe se
procurando os desajeitados beijos de ofélia
nas lajes ressequidas pelo verão

é tão difícil dizer amo-te
repetiu e ficou outra vez em silêncio
atordoado de sol e de heterónimos

então eu disse que isso era apenas
pelo simples facto de a palavra ser
acentuada na primeira sílaba o que
não dava jeito nenhum a pronunciar

ele riu e ficámos então a discutir se
a palavra seria grave ou esdrúxula até que
fechado o livro e arrumados os papéis
ele declarou
adoro-te é bem melhor

e saímos para a rua felizes
por termos encontrado
tão facilmente a
solução do problema
Alice Vieira (lido no seu mural do facebook)

Nota-se muito que estou apaixonada?

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

[lixo no carro] devemos contrariar o cliché?


 
Ontem a Rádio Comercial recordou este episódio da Mixórdia de Temáticas. Perante a última parte (04:50) e, o ponto de vista de Pipoco de que vos falei há dias, ocorreu-me então o seguinte dilema: será que devo continuar a contrariar o cliché e manter o meu automóvel impecavelmente limpo e arrumado, com a ajuda do saco de lixo da minha amiga Mimi e, tornar-me, portanto, mais atraente como mulher? Ou recusar-me a ser submissa, recusar-me a fazer algo só para me tornar mais desejável, negando assim toda a minha feminilidade e toda a minha essência (isto é, negando a tendência inata que tenho de desarrumar o carro)? Será que os homens que se sentem atraídos por mulheres que têm o carro limpo não estarão a sentir-se atraídos pelo seu lado masculino? Será esse o tipo de homem que as mulheres querem? Que me dizem?

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

[música para bebés] aprender desde o berço!


 
É consensual entre a comunidade pediátrica, que as crianças que aprendem música são mais concentradas, têm melhor memória e, atrevo-me a dizê-lo, são mais felizes. Em parte porque têm um modo extremamente eficaz, socialmente aceitável e belo de canalizar energias.
 
O que não é tão evidente para nós, mas ainda assim claro para investigadores e professores é que, tal como a linguagem, se as bases da música forem aprendidas desde os primeiros meses (antes dos 2 anos), a aprendizagem é muito mais sólida e perfeita. Por isso, pais e mães, cantem! Digam lengalengas, rimem, batam em tambores, agitem maracas, dancem com o corpo todo! A música é importante! Desde o berço.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

[welcome to mozambique] o milagre da harmonia

Um exemplo do que vos disse ontem para que vejam como é verdade, verdadinha tudo o que vos contei (vêm muitas pessoas a este mato que não me deixam mentir, mas nem toda a gente sabe disso):

Uma madrugada eu, a minha amiga R. e as meninas que viviam  connosco e com as irmãs fomos com um enorme grupo da comunidade a uma caminhada até ao cimo do monte Gilé. Esta atividade em grupo, intensa e animada, terminou numa missa campal em que as senhoras cantaram uma música que não conhecíamos.

Semanas depois, as meninas cantaram esta mesma música na missa. Precisamente no mesmo tom (haverá certamente algumas com ouvido absoluto, ou com uma capacidade de gravação notável, embora não o saibam). Com uma harmonia e segundas vozes irrepreensíveis! Nessa noite, quando as aplaudi e elogiei, olharam para mim, incrédulas do meu entusiasmo. Primeiro até pensaram que estava a brincar. Depois fizeram aquele olhar de adolescente: "Duh! Está aí alguém?" E eu continuei embasbacada e embevecida...


 
P. S. - Claro que o baby-de-mulata sabe esta música. Continuamos no nosso trabalho de inculturação e exercícios africanos. Há tempos hesitei em cantar-lhe uma música em inglês porque se calhar "ainda era muito cedo". Depois lembrei-me que ele já canta em Macua...

terça-feira, 20 de agosto de 2013

[welcome to mozambique] a música é a alma de um povo!



Já vos falei disto dezenas de vezes. Assistir a uma cerimónia ou uma celebração em Moçambique é coisa para nos deixar sem ar de tal forma os nossos sentidos são intensamente invadidos. Pelas cores vivas das capulanas das mulheres e das flores que dão vida ao espaço (onde nunca faltam os ubíquos beijos-de-mulata, que, como sabemos, nascem em qualquer degredo e se criam em qualquer chão!) e que parecem flutuar, suspensos nos fios que cruzam o espaço bem acima das nossas cabeças. Somos quase impercetivelmente inebriados pelo suave perfume das flores do frangipani que nos evoca o cheiro exótico da noite africana e pelo cheiro da terra, da erva, dos rios que correm próximo e das flores silvestres, a que se mistura o odor a corpos, que longe de ser desagradável, subitamente faz sentido naquela mescla de sensações que nos prende com toda a força à realidade!

E a música é arrebatadora! O ritmo quente dos batuques e a harmonia espontânea das várias vozes preenche-nos a mente e instiga-nos a dançar, nem que seja em fantasias, numa energia que nos sacode a alma. Tudo parece um milagre, de tão fácil e intuitivo que aparenta. Quase diríamos que não era possível haver quem cantasse ou tocasse assim sem nunca ter tido aulas de música. Mas várias vezes assisti ao prodígio de ensinar uma música às meninas que viviam com as irmãs e, à quarta ou quinta vez que a cantavam, já havia duas ou três que entoavam uma segunda voz, criada no momento, acrescentando à melodia cores e profundidades anteriormente insuspeitadas. São dons de quem, "desde a capulana de sua mãe"*, foi ensinado a que saber cantar e dançar é tão importante como saber falar ou ter boas maneiras em sociedade.

* Expressão equivalente a "desde o berço".

sábado, 17 de agosto de 2013

[nomes que dizem tudo] toponímica improvável

 
Deliciosa Rua de Santiago de Compostela. Parece que também há - embora seja um facto ainda não fotograficamente comprovado - uma Rua da Algalia de Arriba, o que, convenhamos, é um procedimento médico tecnicamente muito mais fácil.
 
(Foto roubada indecentemente à São João, senhora de uma rinite alérgica sazonal de ler e espirrar por mais!)

[nomes que afinal não dizem tudo] welcome to mozambique

 
Mamã com crianças...
(Iapala, Nampula)

A pedido de várias famílias, aqui fica um pequeno excerto do meu livro. É sobre um episódio no dia da chegada à missão de Iapala...
"Antes do jantar, recebemos a visita de uma jovem com um bebé de poucos meses adormecido às costas. O menino vinha no seu traje de gala, com um conjunto de gorro e meias de lã, amarelo com uma risquinha verde, amorosamente tricotado à mão por uma das irmãs.  
– A touquinha e as peuguinhas de lã são o melhor presente que se pode dar a uma mamã – explicou-me depois a irmã Lurdes.  
– Com este calor?
– Não me perguntes porquê, mas todas as mamãs adoram. 
Realmente, como diria Mark Twain, os costumes mais absurdos são sempre os que permanecem mais enraizados... A "touquinha", como a irmã lhe chamava, era um gorro de inverno, de aspeto bastante quente, com direito a pompom e tudo! A jovem era mulher de um dos empregados da missão. Sabia que a irmã Conceição tinha chegado e vinha dar notícias da sua ida a Nampula para registar o menino.
– Não me deixaram pôr o nome que a irmã disse – lamuriou-se.
– Porquê? – Espantou-se a irmã Conceição.
– Disseram que não era nome normal. 
 Mas que estranho...
A jovem mamã tinha ido, dias antes, ter com as irmãs a Nampula porque estava com dificuldades na escolha do nome do bebé. Era o primeiro filho, o que tornava o processo muito mais complexo, com uma grande responsabilidade. Queria dar-lhe o nome de um padre, porque os missionários eram as pessoas mais importantes da região, mas não sabia que nome escolher. A irmã lembrara-se então que o pai do menino, em tempos, trabalhara para um padre em Nampula e tinham ficado particularmente amigos.

– Porque não lhe põe o nome dele?
A sugestão tinha sido bem aceite...
– Mas, afinal, qual era o nome que lhe queria dar? – Perguntei, curiosa.
– Padre Arlindo...  
A jovem estava desolada, mas eu tive de deixar cair um brinco no chão para poder esconder a cara, porque só me apetecia sorrir às gargalhadas com aquela cena digna de uma comédia dos anos ’30. Depois de uma longa explicação das irmãs, a jovem saiu um pouco mais conformada.
– Acho que não vai muito convencida... Só Arlindo parece que não diz tudo – notei.
– Também me parece... Mas ainda bem que o funcionário do Registo Civil foi sensato, senão o menino tinha ficado com um Arlindo nome! E se fôssemos jantar?"

in A Missão - Diário de uma Médica em Moçambique