sexta-feira, 2 de junho de 2017

[histórias de desamor na adoção] as crianças devolvidas


Ontem, dia da criança, tentei ignorar uma notícia. E ainda dizem por aí (e até há quem cante!) que a dor da gente é coisa que não sai no jornal. Fiquei com um nó na garganta porque, em pouco mais de um ano, 43 crianças não chegaram ao fim do processo de adoção e foram "devolvidas" às instituições de onde provinham. Estive até ao fim à espera de ver que pelo menos 90% teriam mais de 13 anos, que seriam pré-adolescentes difíceis, com histórias de vida complexas e psiques intrincadas. Que pudessem ter doenças graves. Daquelas mesmo graves como o meu baby-de-mulata, que tinha "autismo" e um intestino que era um molho de brócolos. Mas não, o nó na garganta não se desatou no final. Quase metade tinha menos de 2 anos. Um número irrisório tinha problemas de saúde graves. O que foi que se passou?

É claro que há coisas de que ninguém fala! Que a depressão pós-adoção é tão real como a depressão pós-parto, mas muito menos falada e tolerada. Que os candidatos passam anos a idealizar o dia em que o telefone toca, a ansiar por esse dia. A telefonar de seis em seis meses para ver como vai o andamento da "gravidez" virtual de que já receberam o teste positivo há tanto tempo (a declaração de que se está apto para adotar), mas não há bebé à vista. E no meio deste tempo, cada um faz a sua vida como pode. Há casais que se desfazem. Que colocam o sonho de maternidade em stand by. Que se anestesiam, que adormecem à pancada os relógios biológicos. Que procuram outras formas de contactar com crianças. Que se dedicam aos sobrinhos, à carreira profissional, um doutoramento. Que se defendem como podem do sofrimento que é saber que a "gravidez" pode não chegar ao fim. Há os que vão tentando FIV atrás de FIV com desilusões atrás de desilusões.

Mas no dia em que o telefone toca, anos depois do tal teste de gravidez positivo (às vezes três anos, às vezes seis anos), o dia nunca é propício. Claro! A vida está sempre programada sem filhos. Até para mim, que quem acompanhou o processo sabe que não pensava em mais nada, o dia não foi propício. No preciso dia em que o baby me foi entregue tinha de entregar o currículo para terminar a especialidade. No MESMO DIA, caramba! Tive uma semana para reorganizar o meu projeto de vida profissional e colocar oportunidades e carreira para segundo plano. Eufórica, claro! Mas sem saber se no final da licença de maternidade ainda teria as mesmas oportunidades de contrato. A vida sempre me foi madrinha e foi o melhor que me poderia ter acontecido. Sei que fiz o que estava certo, mas estava preparada, à espera do que veio a acontecer. Mas e os outros, que esperaram seis anos? É que temos de ser realistas: sempre me custou ouvir isto dos muitos pais de filhos adotados que conheço profissionalmente, mas seis anos depois, o sonho já não é o mesmo! O encanto já não é o mesmo. O deslumbramento, a excitação, a felicidade sabem um pouco mais a frio... Há alguns pais que relatam a minha euforia. Mas muitos (um número arrepiante!) relatam este desencanto. Um parto doloroso e inesperado. E o transtorno e a reviravolta que uma gravidez de dez dias em vez de nove meses pode trazer a uma vida? Em poucos dias é preciso meter férias, preparar o quarto, comprar roupas, fazer um álbum de família e o diabo a sete. As famílias podem não ter um pé-de-meia preparado para fazer face a uma despesa inesperada como esta. E há sempre uma viagem, uma tese, um projeto que tem de ficar por terminar.

E depois vai-se ao desconhecido. Os pais querem um filho. E os filhos querem uma família. Mas se perguntarem a um casal se era mesmo "aquele" filho que queriam. Inicialmente não, claro! Tal como se perguntarem a uma criança se era "daquela mãe" que ele estava à espera. Claro que não! Mãe é a pessoa que dá o amor maior e tudo quanto uma criança necessita. Se não há vínculo não há amor. Não é aquela senhora que é a "MÃE" que se idealizou. Não é aquele senhor que é o PAI com que a criança sonhava. São feios e tensos. Claro que não são os meus pais, dizem as crianças que já falam! É claro que não era nada daquilo...

Se não se está à espera disto, o desencanto pode ser avassalador. Os vínculos não são imediatos. Mesmo com os filhos biológicos, carregados nove meses no ventre. Os vínculos demoram, o amor leva tempo.

É natural que a primeira reação seja de rejeição. Por parte da criança e até de parte a parte. É natural que a criança diga coisas como "vocês não são os meus pais nem nunca serão!" Pode até dizê-lo para os testar, mas isto custa ouvir. E custa muito! E ainda mais se a instituição onde os pais adotivos os foram buscar for a mesma instituição onde a mãe biológica um dia prometeu que os ia buscar e nunca mais voltou. A criança continua à espera que a sua mãe volte e se for com os "novos pais", está a trair a mãe biológica e, pior, ela nunca mais os encontrará! Alguém terá feito o trabalho de casa e preparado a criança para ir para uma família? Nem sempre! Há instituições onde nada disto é feito. Onde as crianças continuam à espera que as mães as venham buscar. E há crianças que apesar do trabalho que é feito não conseguem ultrapassar a imagem da mãe a dizer que voltava.

Se os pais idealizaram a relação perfeita, pior um pouco. Se forem mais preparados talvez seja mais fácil. Se os técnicos conseguirem descortinar o que se passa e traduzir por palavras o que todos estão a sentir também é mais simples, mas nem sempre é simples. E depois de anos a tentar engravidar pelas vias mais naturais, isto pode saber mesmo a um "filho de segunda". Um filho de recurso... "Com um filho biológico nada disto aconteceria", pensam as mães, para quem o mito da "voz do sangue" é tão portuguesmente verdade.

E podemos pensar que um bebé é diferente. Um bebé não fala, não agride, não diz coisas que magoam. Mas reage à rejeição com ansiedade e tensão. Um bebé que ainda não conseguiu estabelecer uma vinculação segura não olha nos olhos, não sorri, não come, cospe a comida, fica irritado com tudo, não dorme bem, não se encosta ao peito da mãe. Está sempre em alerta e tenso. Nada a ver com o bebé fofinho que dorme tranquilo nos braços da mãe que toda a gente idealiza.

Eu, que sou pediatra, às tantas tive de ir perguntar a uma grande amiga pedopsiquiatra se estaria a fazer alguma coisa de errado porque o príncipe insistia em adormecer na cama dele e não chamava quando acordava. Ficava alegremente a palrar no berço. Há tempos perguntei-lhe por que não queria dormir ao meu colo. Respondeu-me: "Mamã, desculpa, eu gosto muito de ti. Mas é que me faz muito calor!" Às vezes a realidade é muito diferente das nossas fantasias...

É preciso muita maturidade e um GPS emocional muito potente para conseguir lidar com isto e sobreviver. Sobretudo sem experiência e sem preparação. Felizmente a maioria das crianças está ávida de amor e afeto. E os pais também estão ávidos de serem pais. Geralmente há uma amiga, uma avó, uma prima com experiência e que passou pelo mesmo. Quem nunca conheceu ninguém que teve um filho que não dormia de noite, não comia ou que chorava por tudo e por nada. Passado algum tempo tudo se sana... Lembro-me bem que o meu baby só se apaixonou verdadeiramente por mim meses depois de lá estar em casa. Sim, meses. Dois meses, acho eu. Dou muitas vezes este exemplo aos pais. Mesmo o meu, que era bebé, demorou tempo. O amor leva tempo!

Os técnicos que acompanham o processo são pessoas competentes e preparadas. Psicólogos, assistentes sociais. São quem pode ajudar os pais a ultrapassar os seus receios, descodificar o que se passa com as crianças, tranquilizar os pais. O problema é que por melhor que sejam os técnicos, eles são os mesmos que os estão a avaliar. São eles que no fim vão emitir um parecer positivo ou negativo sobre se deve ou não ser requerida a adoção plena. Do mesmo modo que alguns alunos têm receio de "fazer má figura" ao colocar questões aos professores, muitos pais não conseguem expor os seus receios, dúvidas e zangas aos técnicos. Mas a falta de vínculo não lhes escapa. Salta à vista! Os pais têm seis meses para mostrar o que valem. A criança tem seis meses para se adaptar. Se estes seis meses são passados a lutar com sentimentos contraditórios, com uma depressão pós-adoção, com uma adaptação difícil ao novo papel de pai e mãe e com a reorganização do casal em torno da criança, é difícil a criação de uma vinculação segura. E qual é o técnico irresponsável que ao fim de seis meses, vendo que a criança e os pais não estão seguros e felizes, que rejeitam, negligenciam e não têm empatia com o filho, deixa a criança com esta família? A isto se chama devolução. Um projeto que não aconteceu... Quantos casais "biológicos" se desfazem no primeiro ano de vida de uma criança? Os primeiros tempos são muito exigentes, extenuantes emocionalmente e fisicamente!

Mas teremos maneira de melhorar? Claro que sim! Tem de haver equipas de recurso, que sejam diferentes das que estão a avaliar o processo. Preparadas para intervir neste período crítico. Se virmos o caso de uma criança que está o tempo todo tensa, irritada, que não come nem dorme, essa criança está doente! Profundamente doente. A vinculação com pais maduros, disponíveis e seguros pode reparar esta ferida imensa. Mas por vezes é preciso um médico. Sobretudo se a mãe se deprimir também com isto tudo. Facilmente se cai na asneira de pensar que "O bebé não é do meu sangue. Geneticamente nada disto me estava destinado." Se for preciso colocar um pedopsiquiatra na equipa, que se coloque! Eles fazem milagres com casos muito mais difíceis! Mas tem de haver um caminho para que não se ouçam mais notícias destas!

7 comentários:

  1. E talvez melhorar os próprios processos de adopção, tentar torná-los mais curtos, e com maior envolvimento entre criança e potenciais pais...não passará também por aí o caminho?
    Nunca aprofundei esta questão mas tudo o que vou ouvindo dos processos de adopção fazem-me nem sequer considerar essa opção para um segundo filho.

    ResponderEliminar
  2. Também eu fiquei doente com a notícia, e em especial com o facto de serem crianças tão pequeninas. Concordo inteiramente com a ideia de haver equipas de apoio diferentes das que avaliam. Penso que isso é uma das razões do sucesso da formação C: ninguém está a ser avaliado, está-se muito mais à vontade.

    A decisão de devolver terá cabido aos técnicos ou aos pais? Isso é algo que não é explicado.

    Nós, que seguimos um processo algo diferente, porque internacional, só tivemos o nosso filho connosco quando estava plenamente adoptado. E pergunto-me se esse modelo não acaba por ser melhor, no sentido de que desde logo há um enorme investimento na vinculação; não é uma "experiência", não é um "vamos ver como é que corre". Estou a pôr entre aspas porque nunca é isso, mas pode "soar" a isso bem cá no fundo do subconsciente, no espaço dos medos e inseguranças e frustrações e cansaços que são mais ainda do que os dos pais biológicos.

    Enfim, é uma achega, mais uma ideia para se pensar. Porque números destes não podem continuar a acontecer.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pois... mas para quem vai colocar uma criança na mão de um casal, é assustador que assim não o seja, um período de pré-adoção. Imagino que boa parte destes casos terá sido decisão dos pais. Não havendo a opção "desistir" talvez seja diferente. Mas não sei. É tudo tão irreal...

      (um) beijo de mulata

      Eliminar
  3. Mais curtos? Isso é impossível! São milhares os candidatos e pouquíssimas crianças em situação de adotabilidade. O tempo de espera é inultrapassável dadas as condições atuais.

    (um) beijo de mulata

    ResponderEliminar
  4. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, o que torna este processo muito demorado não é a adopção em si; é definir que o caminho das crianças é a adopção. Esse é que é o longo caminho, muitas vezes incompreensível. Mas, uma vez definido que é esse o projecto de vida da criança, a busca dos pais certos inicia-se logo e, quando há candidatos já aprovados que correspondem ao perfil procurado, o processo decorre depressa. Ficam muito tempo à espera, em situação de adoptabilidade, somente os meninos que não correspondem aos perfis traçados pelos candidatos (em geral, os mais velhitos ou com problemas de saúde complicados).
    Para os processos serem mais curtos seria necessário que a montante da adopção tudo decorresse de forma mais rápida. O que creio que será possível, havendo verdadeira vontade (antes demais, política) para que tal suceda.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É isso mesmo! Há tantos militantes da "voz do sangue" nas instituições... mas nada é simples nestes casos.

      Eliminar
    2. Nas instituições e nos tribunais. Contava-nos a equipa da nossa formação C que havia ainda muitos juízes totalmente avessos à adopção, que preferem recambiar os miúdos para um familiar, mesmo que distante e sem garantias de que vá conseguir cortar o ciclo de miséria que levou à retirada da família. E depois lá vêm as crianças de novo para as instituições, mais traumatizadas e mais velhitas, menos facilmente adoptáveis. Isto tudo é extremamente complexo e delicado - e faz-me apertar o coração...

      Eliminar