sexta-feira, 21 de abril de 2017

[hoje foi o dia!] zambézia, uma história de encantar








O Monte Namúli
(Zambézia, Moçambique)
Fotos: Algumas são minhas, outras daqui.


As Flores de Frangipani

Há muitos, muitos anos, a Zambézia era uma terra selvagem, quente de origens, onde nasciam fontes de águas mornas e perfumadas, onde a terra era tão fértil que as mais pequenas sementes podiam dar frutos e as montanhas se cobriam de um véu glaucomatoso todas as manhãs. Para que o céu só se mostrasse depois de todos estarem bem acordados para o poderem contemplar... Numa dessas montanhas, a que haveria de se chamar Namúli, o primeiro homem surgiu na bruma de uma madrugada, coberto de capim e de folhas, germinado nas raízes mornas de um embondeiro. E, depois de um urro de alvoradas, que só não faz parte da história porque ainda não estava lá mais ninguém para ouvir, olhou com espanto aquele céu de paraíso, agradeceu a Muluku, Deus dos antepassados, e desceu avidamente em direção à planície, começando a espalhar a sua semente pelo mundo.

Nessa terra verde, no coração de África, ainda a criação divina não estava completa, nasceu anos depois, um menino de olhos negros como a terra mais fértil, e cabelo crespo, como os irreverentes ramos de um embondeiro. Era um menino com o coração doce e a cabeça cheia de aventuras, a quem chamaram Trovão. A sua companheira de infância era uma menina terna, de olhos azuis, transbordantes de futuros, e cabelos perfumados, cujo nome seria Rosa, se nessa terra existissem rosas ou alguém já tivesse sonhado com flores delicadas. Por isso lhe deram o nome das flores mais doces das árvores mais altas, porque o seu perfume só poderia vir do céu. O seu nome era Frangipani, mas todos lhe chamavam Gigi, como o som do seu sorriso.

Gigi e Trovão corriam felizes pelas montanhas, trepavam ao cume do monte Namúli, comiam as bagas mais doces dos arbustos espinhosos e construíam, entre segredos e gargalhadas, pequenas cabanas de paus e de folhas, onde mal cabiam deitados e entrelaçados um no outro. Era lá que se deixavam ficar em silêncio, na hora do calor, contemplando o céu pela abertura no teto que Gigi queria manter descoberta a todo o custo, para que o céu não lhe fugisse dos olhos e para sentir, nos dias de chuva, o sabor redondo do sol. Por vezes, nos dias em que o calor se demorava e a terra estava mais húmida e fértil, o próprio chão se entranhava entre os dois e criava raízes, como pontes entre um e outro. E era quase difícil despegarem-se, vestidos da mesma pele.

Os meninos foram crescendo, os dentes de leite foram caindo e eles enterravam-nos no chão da cabana, onde, pouco a pouco, se foi formando uma gruta, revestida a raiz de embondeiro. Mas, à medida que os meninos cresciam, aqueles momentos de silêncio e cumplicidade foram-se tornando cada vez mais raros. Já todos sabemos, mas eles não tinham quem lhes dissesse, e só depois poderiam vir a descobrir, que na infância, a dada altura, há uma magia que se quebra, uma gargalhada que se suspende, toda uma vida que se torna memória... E no dia em que enterraram o último dente de leite, cada um seguiu o seu caminho, porque desde que o mundo é mundo, para crescer é preciso afastar-se da casa onde que se cresceu... Para se poder amadurecer e depois poder amar e querer gerar vida...

Gigi e Trovão desceram do Monte Namúli e cresceram em direções opostas, até que um dia, na planície se reencontraram. Ele tornara-se um homem enorme, com a face e o peito cobertos de pelos, das raízes do embondeiro que se lhe entranharam na pele nas longas tardes da sua infância. Os olhos quentes continuavam doces e cheios de aventuras. Gigi crescera para se tornar numa mulher linda, mas os olhos, outrora de céu, eram agora olhos azuis de mar. As raízes do embondeiro cresciam no seu ventre, secando-o por dentro. E o mar, que sonhava que um dia lhe cresceria no ventre, para depois jorrar vida, só nos olhos lhe crescia todos os dias. E deles transbordava todas as noites. Nos seus olhos já não se viam futuros por causa daquele mar morto no seu ventre, onde só existia sangue e lodo…


(continua...)

quinta-feira, 20 de abril de 2017

[momentos para sempre] um dia deixo de escrever histórias clínicas...

... e escrevo uma história de encantar... Amanhã será o dia!

 Houve tempos em que a viagem dos meus sonhos era ir até às plantações de chá do Gurué, perto das margens do rio Zambeze.
Um dia hei-de voltar... com o baby-de-mulata e Mr. Shaka e os que mais vierem!
(Gurué, Zambézia)

Como pano de fundo, o verde arrebatador e o mito da origem do primeiro homem ali mesmo, nas nascentes do Monte Namúli. Segundo a lenda macua-lomué, foi precisamente nesta montanha que a humanidade teve origem, e o primeiro homem terá surgido numa madrugada, germinado nas raízes de um embondeiro e, depois de beber das águas perfumadas das montanhas*, desceu calmamente em direção à planície e começou a espalhar a sua semente pelo mundo.

Hoje em dia, o Monte Namúli está envolto em mitos e tabus... Diz-se que só se pode subir depois de uma cerimónia longa e difícil levada a cabo por um régulo e com permissão dos antepassados, depois de rezas, oferendas e respeitos. Segundo o mito, e à maneira deliciosamente macua, o guardião do Monte Namúli começa a falar com os viajantes incautos de tal forma rápido que estes se baralham e nunca mais conseguem encontrar o caminho para casa...

(Adenda, por respeito à Prof. Doutora Ruiva, amiga deste mato: gostava que existisse um mito de origem da primeira mulher, mas suspeito que o primeiro homem macua se teve de desenrascar sozinho...)


*Que séculos depois alguém venderia sob a designação comercial genericamente inflacionista de águas gourmet

quarta-feira, 19 de abril de 2017

[he was the forerunner] para bens atrasados!



O Senhor Mandará os Seus Anjos

Ontem fizeste anos... A passagem do tempo é tão neuroticamente precisa que os aniversários calham sempre em dias certos. Eu é que sou tudo menos neurótica. Mas hoje quero agradecer-te por teres nascido, e por me teres preparado os caminhos que percorri. E por me lembrares por vezes de que, em tempos, também já consegui acreditar em seis coisas impossíveis antes do pequeno-almoço.

Deixo-te uma pérola musical do meu primo João Andrade Nunes, de que tenho a certeza que vais gostar! Para bens! Por tudo, tudo! Que a fruta te esteja sempre madura no verão e que Aloysius nunca fique insuportável...

segunda-feira, 17 de abril de 2017

[serviço público beijo-de-mulata] sarampo, o que todos podemos fazer?

Este blogue raramente faz serviço público (exceto, pronto, daquela vez em que vos ensinei a ajudar a dar à luz numa bomba de gasolina e pouco mais). Mas hoje estou fora de mim! Um surto de sarampo, valha-me Santa Rita de Cássia?! Têm-me ligado diariamente. Sobretudo os pais dos bebés com menos de 12 meses. O que podemos fazer relativamente ao surto de sarampo? Há alguma medida a tomar? Podemos fazer algum tipo de vacina?

Os pais que têm os filhos no jardim de infância têm especial razão em estarem preocupados. E se considerarmos que a primeira dose aos 12 meses pode não ser eficaz (ou seja, a dose dos 5-6 anos não é um "reforço", mas uma segunda oportunidade de vacinação), em cada jardim de infância há dezenas de crianças suscetíveis. Assim, a única maneira de conter um surto é aumentar a imunidade de grupo.

O mais importante é sensibilizar os pais de que a vacina é para ser dada aos 12 meses. Mesmo aos 12. Não adiar para os 13 porque o menino está constipado/ teve uma bronquiolite na semana passada/ anda a comer mal/ ainda não introduziu o ovo na alimentação*. E neste ponto as nossas equipas de enfermagem fazem muitas vezes o movimento contrário: "O menino está adoentado, volte cá para a semana". A bebé de 13 meses que teve sarampo há poucos dias pode bem ter sido um caso desses. Cabe aos pais responder: "Para a semana não posso, tem de ser hoje!" E que a vacina dos 5-6 é para ser dada mesmo aos 5 anos. Acabadinhos de fazer.

Outra coisa é pedir aos pais e todos os familiares, empregadas domesticas, babás, etc, para reverem o seu próprio boletim de vacinas. Procurar as doses da VASPR (ou VAS para os nascidos antes do final dos anos 80).

A outra coisa que se pode fazer (eu própria já escrevi à diretora do Colégio do meu filho) é pedir a todas as pessoas com responsabilidade na contratação de funcionários ou na sua saúde ocupacional que revejam o estado vacinal dos seus colaboradores. Geralmente na contratação é pedido o boletim de vacinas, mas a principal preocupação é a vacina anti-tetânica. E bem. Geralmente é a que está desatualizada. Mas será que viram com o mesmo cuidado a vacina contra o sarampo? Nunca é demais confirmar.

E é isto. A ver se a coisa passa.

* Há dois meses tive de me zangar com uma enfermeira que se recusava a dar a vacina a uma bebé de 9 meses que ia para Angola porque a menina ainda não tinha introduzido o ovo. Por sorte a mãe ligou-me e disse à enfermeira que se queria ir contra as orientações da DGS que escrevesse e assinasse com letra bem legível que eu ia tomar as providências necessarias! Há muito que não me acontecia tal coisa, mas nunca é demais avisar os pais das falsas contraindicações da vacina.

[mozambique revisitado] um surto de sarampo





A Casa do Gaiato de Maputo (a capela, os meninos, o refeitório e o berçário para as crianças desnutridas da aldeia mais próxima).

(Boane, Maputo)

Em 2003, era ainda estudante de Medicina quando parti pela primeira vez para Moçambique em voluntariado. Já contei muitas vezes estas histórias, mas nunca contei a história do surto de sarampo que por lá aconteceu na minha estadia. Não é, de facto, algo que goste de recordar... Mas também nunca pensei, confesso, que a haveria de contar nestas circunstâncias, em plena ameaça de surto de sarampo no nosso país...

Há mais de 10 anos, no meu hospital, quando o diretor perguntou a todos os internos mais novos se alguém já tinha visto um caso de sarampo fui a única a levantar a mão. Os meus colegas olharam-me com curiosidade, meios incrédulos. "Onde?", perguntaram. "Vi mais de 100 casos em Moçambique. Em Portugal nunca." "Ah", responderam, "em Moçambique está bem." 

Foi ali, em Boane, próximo da barragem dos Pequenos Libombos, a 50 km de Maputo, que conheci Moçambique... Foram os encantos de primeira vez em África. Na Casa do Gaiato, com o Padre Zé Maria, a Irmã Quitéria, a tia Cármen, a D. Virgínia, de quem já vos falei, e os meninos mais adoráveis que alguma vez tinha conhecido e que viviam no orfanato... Rendi-me a eles no primeiro dia, em que me vieram adornar a mesa-de-cabeceira com uma flor selvagem que crescia numa casca de coco, "para titia sentir o cheiro da terra antes de dormir". Se me pedissem uma só prova de que é possível crescer e que vale a pena investir em Moçambique, eu saberia o que responder.

Era no centro de saúde, a 5 km da Casa do Gaiato, que começavam os meus dias. Depois do mata-bicho* com os meninos, o António, um dos mais velhos, que já tinha carta de condução, ia levar-me ao centro de saúde através de uma picada fabulosa, quase desaparecida por uma vegetação rasteira de savana seca a perder de vista, e onde, a espaços, emergiam as micaias, as árvores que eu amo desde o primeiro dia, com os seus espinhos e a sensação de serem as únicas sobreviventes no meio da secura atroz da planície.
 
Eu ia à frente no machibombo**, ao lado do António. Os meninos que não tivessem aulas nesse dia também iam connosco atrás, para ajudarem em pequenas tarefas do centro de saúde: encarregavam-se da inscrição dos doentes, ver temperaturas, medir tensões arteriais, varrer o pátio, ajudar os doentes a perceber como se tomava a medicação.

Um dia vieram-me mostrar um menino que estava muito doente. Era filho de um professor da escola da aldeia. Tinha 8 meses e não parava de tossir. Prostrado. Não mamava e não aceitava comer mais nada. Tinha os olhos injetados, o nariz congestionado e, desde essa manhã, tinha-lhe aparecido um exantema (borbulhas). Não era fácil ver o exantema, dada pigmentação escura do bebé, mas à luz via-se perfeitamente que as borbulhas lhe cobriam todo o corpo. A história fez-me soar os três C do livro de microbiologia (cough, coryza and conjunctivitis). Procurei o sinal de Koplik, inequívoco, diziam os meus livros, patognomónico, dizia a minha professora


Peguei na lanterna e procurei pequenos grãos de sal na mucosa junto aos dentes molares... Estavam lá, de facto, mas eram muito mais pequenos do que eu tinha ideia. "Como grãos de sal" lembrava-me eu das aulas da faculdade. Mas... só se fosse sal de mesa e não sal de cozinha, ocorreu-me... Ai, valesse-me Nossa Senhora dos aflitos, então o menino estava ali doentíssimo, prostrado, quase sem respirar e eu com dúvidas se o sinal de Koplik era do tamanho de grãos de sal de mesa ou de sal de cozinha?! Mas como era possível? No meio da savana uma dúvida existencial deste calibre... Mas tinha de ir esclarecer a dúvida. Não tinha outro meio de diagnóstico. Não havia net móvel em Moçambique. Muito menos banda larga ou satélite para me valer do meu Santo António do Google. Fui à sala onde tinha deixado os meus livros, que por sorte tinha levado nesse dia. E lá estava: "like table-salt grains". Era mesmo sarampo, caramba! 

Mas o menino, Ângelo era o seu nome, apesar de filho de um professor e de uma funcionária do centro de saúde, estava ligeiramente desnutrido. Tinha nascido com baixo peso e os pais, apesar de terem um salário que os mantinha ligeiramente acima do limiar da pobreza, comiam carne apenas duas vezes por semana e muito poucas verduras e fruta. O preço destes géneros alimentares, luxuosos em Moçambique, era abolutamente proibitivo para eles. Mas era uma alimentação manifestamente insuficiente para uma grávida, já mãe de quatro filhos mais velhos. Para agravar a situação o bebé ainda mamava quase exclusivamente e a diversificação alimentar apenas começara no mês anterior... 

Estava com febre. O teste da malária foi positivo, infelizmente, compondo o quadro. Prescrevi-lhe tudo o que pude que o pudesse ajudar: antibiótico para a pneumonia óbvia, broncodilatador, antimalárico, polivitamínico, vitamina A em dose gigante. E uma solução de reabilitação nutricional. Os olhos do pai escureceram quando leu "desnutrição ligeira" na ficha do filho: "Nós damos tudo o que podemos, mas a comida é muito cara..."
 - Eu sei, pai...

 Foi difícil tratá-lo nestas circunstâncias. Eu fiquei horas à cabeceira do menino, com medo que me morresse ali mesmo... tenho sempre a fantasia de que se não arredar pé dali, a morte não se atreve a ir buscá-los. O menino melhorou lentamente. Veio novamente no final da minha estadia para se vacinar. Já tinha 9 meses. E o pai perguntou-me então:
- Lá em Portugal também há sarampo?
- Não, senhor professor, lá em Portugal não há sarampo.
- Mas como? Vacinam os meninos à nascença? Aqui em Moçambique só se vacina aos 9 meses.
- Não, em Portugal vacinamos aos 15 meses [Em 2003 o Programa Nacional de Vacinação era mais otimista do que agora e a nossa cobertura vacinal ainda maior...] 
- Afinal?! Então como não têm sarampo?
- Todas as pessoas estão vacinadas. Não há sarampo em Portugal!

Os olhos dele brilharam, como se lhe tivesse confirmado que o paraíso existia na terra:
- Gostava de conhecer Portugal, Doutora. Deve ser um país lindo...
- Ora, professor, lindo é Moçambique! - respondi.

Mas nas semanas que mediaram estes dois episódios, tive alguns dos piores dias da minha estadia. A mãe do Ângelo tinha-o levado dias antes do seu agravamento à enfermaria das crianças desnutridas. Tinha lá ido levar umas roupinhas que já não lhe serviam para oferecer às mães dos bebés desnutridos. O filho tinha ido com ela, obviamente, às suas costas na capulana...

Já estão a imaginar o que aconteceu naqueles dias... O pior surto que já vi, entre os meninos mais vulneráveis de todos. O Padre José Maria ia desesperando... tanto esforço humano e económico para reabilitar aquelas crianças e uma doença maldita vinha agora dizimá-las. Ainda assim tivemos "apenas" 10% de mortalidade! E digo "apenas" porque o que dizem os livros é mortalidade de 50% em crianças desnutridas. Era essa a taxa de mortalidade no Hospital Central de Maputo... Ainda sei de cor, passados estes anos todos, o nome dos meninos que não resistiram apesar dos nossos esforços naqueles dias negros... 

Foi preciso ir a Maputo comprar mais antibióticos e mais antimaláricos e mais polivitamínicos e mais não sei quantos medicamentos para reforçar a reserva que quase se esgotou nos dois primeiros dias. Foi difícil convencer os responsáveis do distrito de que era necessário vacinar de emergência todas as crianças que ainda não tinham sido vacinadas. Demorou semanas a conter o surto... Mas graças ao esforço de todos, o surto apagou-se, tal como veio... 

Mas ainda nem posso acreditar que ontem uma adolescente foi ligada a um ventilador no meu hospital por esta mesma doença, anacrónica e maldita!

domingo, 16 de abril de 2017

[iapala revisitada] as flores do frangipani


Esta é a flor do frangipani, uma árvore de xicuembos* e xipocos**, a árvore dos deuses e dos antepassados, de flores românticas e perfumes noturnos... O frangipani tem as flores das manhãs claras, que vêm enfeitar os cabelos das jovens, das noivas, das virgens e os adros das igrejas nos dias felizes.
(Iapala, Nampula)

Como diria o meu amigo Lépido, nós não temos estilos, temos momentos... E eu também tenho direito a dias pirosos! Pronto, era só isto. Aqui no mato-que-já-não-é-mato não temos livro de reclamações. Nem mesmo o Sr. Pompisk, o maior comerciante da Zambézia tinha tal modernice! Para ele, se nos estiver a ouvir, aquele abraço. Tenham um bom dia e que a Páscoa  (ou a Primavera, o que vos disser mais) vos renove.

* Deuses
** Fantasmas

sexta-feira, 14 de abril de 2017

[outras palavras] psicanálise selvagem

Borges um dia sonhou que estava perdido num labirinto, angustiado com a ideia de ficar preso para sempre. No centro do labirinto constatou que estava um espelho, mas o rosto que reflectia não era o seu. Suspirou aliviado. Obviamente que o sonho era do outro. E, despreocupado, pôs-se a passear pelo labirinto... 
L. Veríssimo.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

[psiquiatrices] uma crise de soluços improvável


Abril é o mês em que me lembro sempre, com um sorriso, desta improbabilidade que me aconteceu há já mais de 10 anos... Perdoem-me os que já leram e releram este post. Mas eu não resisto a contar de novo esta história...

O mentor espiritual desta blogger mulata certa vez teve uma crise de soluços. Nada há de extraordinário nisto, não fosse dar-se o facto de a crise ter sido desencadeada por um desgosto de amor e ter sido tão prolongada que o colocou em perigo de vida...

Dois dias depois do início da crise, exausto de tanto soluçar involuntariamente (sem nunca ter chorado, obviamente, que um homem não chora!) telefonou-me. A início não liguei nada. Que mal poderia advir de uma crise de soluços? Quase levei a peito. Mais valia que chorasse a sério no meu ombro e não deixasse o corpo chorar por si nesse chove-não-molha tão incomodativo. Retorquiu que não era nada disso. Estava com uma grande ansiedade, sim senhor, estava de coração partido, era verdade, mas que não tinha vontade de chorar. Tudo bem, respondia eu, que era certamente tudo verdade, que o Psiquiatra era ele, mas que isso era o corpo a chorar por ele, que viesse tomar café comigo que era o que fazia melhor... Não veio. De onde se conclui que um homem que não chora também não toma café com as amigas.

Mas no dia seguinte, depois de uma noite sem conseguir adormecer, ele estava uma lástima e com sensação de morte iminente. Com o otimismo que me caracteriza quando trato de pessoas de quem gosto e com os remorsos de quem tinha desvalorizado a situação clínica, comecei a pensar em coisas selvagens: um abcesso subfrénico, um tumor do tronco cerebral, uma neoplasia da pleura... Lá nos fizemos ao caminho para o hospital e, metodicamente, começámos numa ponta (na TAC de crânio, obviamente) e acabámos na eco abdominal. Nada. Saudável que nem um pêro, que um homem que não chora e que não toma café com as amigas também nunca tem nada de grave, ora essa, era só o que faltava.

Ficámos a olhar um para o outro... O que fazer a seguir? Seria desta, então, que íamos tomar café? Também não... Que a sensação de morte iminente não passava, que já quase não tinha forças, que se sentia mesmo mal, que estava quase a desfalecer. A sorte dele é que conseguia mesmo parecer o que dizia, respondi, de outra forma já estaríamos fora dali, na Versailles, a tomar café. E lá fomos para o laboratório fazer uma gasimetria. E qual não foi o meu susto, que ele estava com uma alcalose respiratória descompensada, com uma hipocaliémia e hipocalcémia (era grave, meus amigos, era grave...).

Pronto, já estava convencida. Que tínhamos de resolver aquilo (caraças para os homens que não choram, que são sãozinhos que nem um pêro, que não tomam café com as amigas e ainda por cima as deixam assim em situações difíceis) e só havia uma maneira: tinha de ficar internado e fazer uma injeção intramuscular de cloropromazina...

Que não, que nem pensar! Que me estava a esquecer que era Psiquiatra naquele mesmo hospital e que não podia ficar internado a fazer um antipsicótico. Nem que fosse life-saving. Ora, que como eu própria sempre dizia, ele que não se preocupasse, que mesmo que um Psiquiatra desse em doido nunca perderia a reputação entre os doentes. Nem mesmo entre os enfermeiros. Que não me fizesse de engraçadinha, que nem por sombras ficaria no hospital!

Estaria eu a ouvir bem? Para minha casa?! Nestas condições, se ocorresse alguma complicação havia risco de mortalidade (que 20% não era brincadeira!), mas foi inamovível. Ou em minha casa ou preferia morrer. Caraças para os homens que não choram mas que em situações destas se tornam drama-queens! (E vamos lá despachar a coisa, que a história já vai longa e a nossa vida não é isto!). Então resumindo, passei uma das piores noites da minha vida com ele a dormir placidamente, depois de os soluços terem passado. Doze horas depois, acordou muito bem disposto, embora a falar à "Prlesidente da Xunta" e a dizer que achava que se calhar precisava de um café para acordar...

De onde se conclui que os homens que não choram, também vão às vezes tomar café com as amigas, mas em pijama, depois de uma noite em casa delas... e só depois de uma dose valente de antipsicóticos..

[comentários que valem um post] diversidade familiar

A doce Maria Bê escreveu um comentário no post abaixo, sobre diversidade familiar.

A Mia, no ano passado, tinha uma coleguinha de escola a quem os meninos chamavam, quando se referiam a ela, "Faith, she has two moms". A Faith, vim a descobrir, era uma criança filha de meth addicts que foi violada aos três meses... uma história horrível. Foi adotada por duas enfermeiras da unidade de cuidados intensivos, que se apaixonaram por ela. (Fim de aparte que só dá contexto).

Para os meninos como os meus, privar de muito cedo com este tipo de realidades, desde a adopção convencional à adopção gay, é um privilégio, sabes. Quando começou a fazer perguntas sobre as barrigas, respondemos-lhe que todos os meninos precisam de um papá e de uma mamã para nascer, mas depois nascem no coração de outros pais, que ficam muito felizes com o poder cuidar deles. Não lhe faz impressão que uma mãe/pai fique sem/dê o seu bebé, o que é engraçado. Um dia mais tarde talvez faça mas por ora fica satisfeita. Um beijo!

terça-feira, 11 de abril de 2017

[histórias para o baby-de-mulata] livros sobre adoção #3

As Famílias Não São Todas Iguais

Este é um livro que ajuda a aplacar angústias e a normalizar a diferença. Põe o dedo na ferida, mas mostra muitas outras, e o mal de muitos alívio é. Quando os meninos perguntam: porque é que o João tem duas casas, a da mãe e a do pai? Porque é que eu não vivo com o meu pai? Porque é que eu tenho uma cor diferente da cor dos meus pais? Porque é que tenho duas mães? Porque é que fui adotado e os outros meus colegas não?

"As Famílias Não São Todas Iguais" ajuda os pais a responderem a todas estas questões e ajuda a criança a chegar à conclusão simples de que família é quem dá amor e quem ajuda a criar esperança!

Divórcio, família reconstruída, adoção interracial, monoparentalidade e adoção homoafetiva são contempladas lado a lado no livro.

A questão punha-se-me mais há uns anos, na altura em que era mãe solteira e me imaginava a responder a questões sobre a ausência do pai. Comecei cedo a ler este livro ao baby e planeava responder simplesmente: "as famílias são todas diferentes. Tu tiveste um pai e uma mãe, como toda a gente, mas depois, como não puderam cuidar de ti, eu fui pedir ao juiz para ser tua mãe para sempre. E agora a família somos nós!" Mas como somos uma família mais tradicional agora ainda não fez grandes perguntas sobre as famílias. Já sobre as barrigas... mas essa é outra história.

domingo, 9 de abril de 2017

[histórias para o baby-de-mulata] livros sobre adoção #2



Os Ovos Misteriosos de Luísa Ducla Soares

"Os Ovos Misteriosos" é um livro maravilhoso, delicioso e absolutamente genial, ou não fosse da Luísa Ducla Soares. Faz parte do Plano Nacional de Leitura para leitura orientada no primeiro ano de escolaridade, mas da minha experiência pode ser lido a partir dos três anos. Mas, claro, nestas coisas não há como ler primeiro (ou ver o vídeo acima) e ver se o nível de desenvolvimento dos filhos se coaduna já com a compreensão do texto.

A história é de uma galinha órfã de filhos, a quem o dono roubava os ovos todas as manhãs. Até que, corajosa. decidiu ir para a floresta chocar um ovo sozinha. Passado pouco tempo, e de forma misteriosa, vários ovos apareceram no seu ninho: uns grandes, outros pequenos, uns mais claros, outros mais escuros. E todos os outros lhe perguntavam por que ia chocar ovos que não eram dela. E ela respondia. amorosamente, como todas as mães adotivas: estão no meu ninho, vão ser meus filhos! Embora admirada, chocou todos os ovos, dos quais viria a nascer uma insólita ninhada: um papagaio, uma serpente, uma avestruz, um crocodilo e também um pinto. Todos irmãos, e todos diferentes, formavam uma ninhada engraçada, que a mãe-galinha tinha dificuldade em controlar e em alimentar.

Mas no fim, numa grande aventura, todos, de modos também diferentes, defenderam o irmão pinto quando o viram ameaçado, dando sentido a todos os esforços da galinha.

Este é um livro em que a enorme ternura que o atravessa não impede o humor e o ritmo tão próprios desta autora. Para ser lido e relido e colocar e responder a perguntas sobre adoção, sobre as diferenças entre os irmãos e as necessidades de cada um e a forma como cada um deve ser tratado, não com igualdade, mas segundo as suas características. Pode ainda ser lido como uma abordagem à multiculturalidade ou à inclusão de crianças com necessidades especiais.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

[histórias para o baby-de-mulata] livros sobre adoção


A Mother for Choco (Comprei na Amazon)

Há muito poucas histórias sobre adoção dirigidas a crianças, infelizmente. Então livros em português são mais raros que um bom tratado de anatomia topográfica (brincando, ok, meus amigos?)... É uma lacuna grave, já que há tantas crianças adotadas em todo o mundo, e dez vezes mais crianças que, não sendo adotadas, têm contacto com crianças que o foram ou sofreram perdas semelhantes e poderiam elaborar melhor essas perdas através de uma história pedagógica e com final feliz. 

Quando o baby-de-mulata tinha dois anos e ainda estava na fase do repete-repete-repete-rotina, gostava sempre que lhe contasse a mesma história vezes a fio. Inventou nomes para cada uma das personagens (a minha preferida era o "porquinho-bifinho"), ria-se com as palhaçadas da mamã ursa e pedia-me vezes sem conta para fazer tarte de maçã.

Agora de vez em quando ainda pega nela e gosta de recordar e fazer perguntas. E eu também faço perguntas, embora ele a mim não me responda... Há vários níveis a que se pode ler a história e vários ângulos e perspetivas, desde a adoção interracial até à questão da monoparentalidade (ou não, podemos sempre imaginar que o pai estava a chegar a casa) e da partilha e diferenças entre irmãos.

terça-feira, 4 de abril de 2017

[histórias de amor] as visitas ao baby-de-mulata #4

(Continuando a epopeia amorosa e trágico-burocrática, que já vai longa...)

Aviso à navegação: Esta parte é difícil e dolorosa. E não adianta grande coisa. Claro que quem vem aqui ao mato-que-já-não-é-mato, vem sempre à sua própria responsabilidade e ninguém é obrigado a ler nada do que está aqui, mas ainda assim deixo o aviso. Para não se queixarem. Este blogue não possui livro de reclamações. A parte boa, como diz a Zu, assídua visitadora e companheira de viagem, é que desta vez sabemos de antemão que a história acaba bem.

Passadas talvez duas semanas, ou menos até, tenho ideia, foi autorizado o meu estudo de caso pelo Senhor Provedor da Santa Casa da Misericórdia. Dada a situação do menino, já com medida de adotabilidade decretada em tribunal e sem candidatos à vista, o estudo foi considerado prioritário. Fui então chamada para a primeira entrevista. Ia receosa. Sabia que me iria sujeitar a um escrutínio de toda a minha vida pessoal, passada e atual. Isso estava bem patente no questionário de 40 páginas que já tinha preenchido, em que tudo era perguntado, desde relações amorosas atuais e anteriores até à vida familiar e profissional atual.

Mas a equipa era extraordinária, humana e profissional. Não estava à espera que tivessem lido tudo com tanta atenção, sabiam exatamente o que já tinha respondido no questionário e o que faltava esclarecer, poupando-me à exaustão da repetição. No fundo, apesar de toda a minha vida ter sido desfilada naquelas horas, senti que acabou por ser mais uma conversa amigável do que um escrutínio desconfiado das minhas intenções. Estavam inicialmente curiosas de qual a razão que me levava a querer levar para casa uma criança com tantos problemas, mas perceberam que eu estava perdidamente apaixonada. E que sabia ao que ia. Eu já tinha tido uma quase-experiência de adoção do meu menino Gaiato. E quando se teve um menino que morreu, tudo o que se pode pedir é um que não morra. Apenas e só. Lembravam-se bem de outros dois casos de meninos, que entretanto, por felicidade do destino e inteiramente por acaso, são agora meus doentes, em que as mães adotivas se tinham vindo candidatar nas mesmas circunstâncias. Ambos casos de sucesso. Portanto não foi difícil perceberem o que me movia e que tinha perfeita noção do que implicava a minha decisão.

Saí da Santa Casa horas depois, com o coração mais leve e com a certeza de que mais um passo estava dado. Mas no dia seguinte recebi um telefonema do Centro de Acolhimento onde estava o meu menino, que me deitou novamente as esperanças por terra: a equipa de adoções local não via com bons olhos as minhas visitas ao menino e não permitia que o fosse visitar antes do meu processo estar concluído. Assim sem mais, como se houvesse algo de interdito e ilegal nas minhas intenções.

Dois passos para trás! E logo nessa altura, em que já se viam pequenos sinais de melhoria no menino. Já ficava mais calmo na minha presença, já não passava o tempo todo a abrir e fechar a janela, já sorria de vez em quando com as minhas palhaçadas, já olhava ocasionalmente para os brinquedos que lhe levava. Nem queria acreditar... por mais voltas que desse à cabeça não conseguia perceber em que sentido é que as minhas visitas o poderiam prejudicar. Mesmo que viesse a estabelecer alguma relação mais forte e privilegiada comigo, isso não seria diferente da relação que estabeleceria com os técnicos ou as funcionárias da instituição ou até mesmo com a educadora do jardim de infância que entretanto tinha começado a frequentar. Que mal poderia fazer ao menino que uma pessoa fosse exclusivamente visitá-lo frequentemente? Apenas a ele, que era mais um entre tantos? Só poderia fazer bem... Mas não havia volta a dar. A própria diretora do Centro de Acolhimento também estava desolada com o meu desapontamento. Desde que me conhecera que tinha ficado a torcer por mim, acabou por me dizer depois... Não sabia o que pensar... Nos dias seguintes tentei fazer várias diligências, apelar ao bom-senso de quem de direito, mas em vão...

(continua)